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sábado, 30 de maio de 2015

Retrato de uma visionária

LivroEllenWhite
Biografia mais completa sobre Ellen White é lançada em português

O ano de 2015 marca o centenário da morte de Ellen White, cofundadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Ao redor do mundo, uma série de iniciativas têm celebrado a herança de fé e esperança deixada por aquela que é considerada uma líder notável, escritora prolífica, reformadora admirável e autêntica mensageira do Senhor. No Brasil, entre as diversas ações alusivas ao centenário, está o lançamento da principal obra acerca de sua vida: Ellen White: Mulher de Visão (CPB).

O autor da obra, Arthur L. White (neto da biografada), trabalhou por mais de 40 anos no White Estate, departamento da sede mundial da igreja responsável por preservar e divulgar os escritos da profetisa. Como secretário, ele promoveu a publicação de muitas obras compiladas de Ellen White e estimulou a abertura de filiais do White Estate em outros países. Contudo, sua maior contribuição veio com a aposentadoria, em 1978. Por seis anos, ele se empenhou em escrever a biografia mais extensa e completa da pioneira.

Originalmente, a obra foi publicada em seis volumes. O trabalho foi tão apreciado que, pouco tempo após sua distribuição, foi sugerido que a biografia fosse condensada em apenas um livro. Sob a supervisão do White Estate, Margaret Thiele fez a redução do material publicado, e Kenneth Wood, a edição. Assim, em 2000, foi lançado o livro Ellen White: Woman of Vision.

A obra é caracterizada por linguagem clara e conteúdo envolvente. Dividida em 39 capítulos curtos e contendo 545 páginas, o autor descreveu a trajetória de Ellen White desde sua infância, em Portland (Maine), até seu sepultamento, em Battle Creek (Michigan). Para empreender essa tarefa, ele pesquisou os diários de Ellen White, as dezenas de milhares de páginas de sua correspondência, seus manuscritos, os artigos em periódicos, seus livros e panfletos, além de artigos históricos que se encontram no White Estate.

Ao narrar a história da pioneira, Arthur conseguiu destacar ao menos três aspectos de suma importância para a compreensão do papel dela no desenvolvimento do adventismo. Em primeiro lugar, contrariando o imaginário popular, que vê nela um “ser sobrenatural”, o autor retrata Ellen White como alguém comum, com suas angústias, preocupações, alegrias e desafios. Arthur deixa claro que a avó, uma fiel cristã, era também esposa, mãe, amiga e vizinha.

Outro elemento importante tem que ver com a contribuição do ministério profético dela. Por meio de relatos precisos e impressionantes, Arthur reafirmou o duplo papel do dom profético para a Igreja Adventista: as revelações confirmavam as descobertas teológicas estabelecidas por meio do estudo da Bíblia e estimulavam o avanço organizacional por meio de instituições editoriais, médicas e educacionais.

O terceiro aspecto está relacionado à influência exercida por Ellen White. Algumas pessoas limitam sua participação na liderança da denominação como porta-voz das revelações divinas. Contudo, era da sua personalidade manter uma visão ousada e empreendedora para o movimento adventista. Por isso, podemos dizer que Ellen foi uma mulher visionária. Essa virtude fez dela uma mulher de visão em duplo sentido.

A importância do livro é realçada por especialistas da área. Para o doutor Alberto Timm, diretor associado do White Estate, a obra “é a melhor e mais abalizada biografia de Ellen White disponível em língua portuguesa”. Ele destaca que sua leitura “contribuirá significativamente para melhor compreensão dos escritos dessa autora que é, hoje, a mulher mais traduzida da história”.

Por sua vez, o doutor Renato Stencel, diretor da filial brasileira do White Estate, sediada no Unasp, campus Engenheiro Coelho, enfatiza que o livro “traz ao público brasileiro a narrativa da vida de uma mulher que possuía notáveis talentos espirituais e que influenciou a vida de milhares de pessoas por meio de seus escritos e de seu exemplo”.

Adventistas, estudiosos do adventismo e o público em geral serão grandemente beneficiados com a descrição viva, singela e bem documentada disponível em Ellen White: Mulher de Visão.

TRECHO

“Sinto cada vez mais saudades do papai [Tiago White], principalmente aqui nas montanhas. Há uma grande diferença entre estar neste lugar com ele e sem ele. Creio piamente que minha vida estava tão envolvida e relacionada à do meu esposo que é praticamente impossível ser alguém sem sua presença” (Carta 17, 1881).


  • WELLINGTON BARBOSA é pastor, mestre em Teologia e editor de livros na Casa Publicadora Brasileira

quarta-feira, 27 de maio de 2015

1844: Coincidência ou Providência?


Foram os eventos ocorridos no ano de 1844 apenas um acidente? Ou tem esse ano um significado mais profundo na compreensão bíblica do plano de Deus na história da redenção? Como adventistas do sétimo dia, deveríamos aceitar a segunda posição. Para nós, 1844 é o ano em que terminou a profecia dos 2300 dias de Daniel 8:14, o marco que assinala o início do julgamento pré-advento no céu, e a culminação do mais longo período profético da Bíblia, proclamando ao mundo que o fim não vai demorar e que a segunda vinda de Jesus está próxima.

O que muitos não sabem, inclusive entre os adventistas, é que 1844 é importante não apenas em relação à história sagrada, mas também em relação a outros eventos mundiais de grande magnitude que fazem desse ano uma espécie de divisor de águas. Antes, porém, vamos traçar a importância de 1844 para a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

De um grande erro a uma poderosa mensagem

Por volta de 1840, muitos pregadores pelo mundo estavam proclamando que Jesus estava para voltar. O pesquisador Le Roy Edwin Froom indica que entre esses pregadores, de várias denominações cristãs, havia brancos, negros, mulheres e até mesmo crianças. Houve uma garota do campo na Europa que atraiu de três a quatro mil pessoas ao pregar sobre o fim do mundo. Grande foi o impacto que ela exerceu na vida de muitos.1

Nos Estados Unidos, foi a pregação e os escritos de Guilherme Miller, um fazendeiro que se tornou pregador, que despertou a paixão tanto de crentes quando de descrentes. Miller e seus associados proclamavam a seguinte mensagem: “Assim como o primeiro advento de Jesus Cristo foi predito em Daniel 9, Seu segundo advento é identificado em Daniel 8:14. Visto que a terra deve ser o ‘santuário’ a ser ‘purificado’, isso vai acontecer por meio do fogo quando Jesus voltar. Começando com 457 a.C., a profecia dos 2300 dias/anos de Daniel 8:14 culminará ao redor de 1843-1844. Jesus virá outra vez por volta desse tempo. Portanto, prepare-se para encontrá-Lo! Sua volta será um evento literal e visível que precederá o milênio.” Essa era a essência da proclamação milerita.

Vinte e dois de outubro de 1844 foi finalmente estabelecido como o dia em que a profecia terminaria. Aquele era o dia em que a terra seria purificada pelo retorno de Jesus. Milhares de mileritas, vários milhares, aguardaram pacientemente, fervorosamente, até que o dia chegou. Então eles esperaram o dia inteiro, mas Jesus não veio, deixando-os profundamente desapontados. Eles foram forçados a admitir que alguma coisa havia saído errado.

Uns poucos dentre os desapontados estudaram as Escrituras ainda com mais fervor. Não demorou para que aprendessem que embora a data de 22 de outubro de 1844 estivesse correta, o evento estava errado. Esses crentes entenderam que o santuário a ser purificado não estava na terra, mas no céu. Jesus havia entrado no santo dos santos do santuário celestial para dar início a Sua obra de julgamento. Como Ellen White mais tarde declarou: “O assunto do santuário foi a chave que desvendou o mistério do desapontamento de 1844.”2

Ángel Manuel Rodríguez comenta: “Tendo completado na terra a obra para a qual viera (João 17:4, 5; 19:30), Cristo ‘foi elevado ao céu’ (Atos 1:11) para ‘salvar definitivamente aqueles que, por meio dEle, aproximam-se de Deus, pois vive sempre para interceder por eles’ (Hebreus 7:25), até que em Sua segunda vinda Ele vai aparecer ‘não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que O aguardam’ (Hebreus 9:28). Entre esses dois pólos, a cruz e o glorioso retorno do Senhor, Cristo atua como sacerdote real ‘no santuário, no verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem’ (Hebreus 8:2), o advogado (I João 2:1) e intercessor daqueles que nEle crêem (Romanos 8:34). Como nosso Sumo Sacerdote, Cristo está ministrando os benefícios de Seu sacrifício àqueles que vêm a Ele, um ministério tão essencial à nossa salvação como Sua morte substitutiva.”3

Assim, o grande desapontamento de 22 de outubro de 1844 se tornou uma poderosa mensagem. É verdade que Jesus não veio como os mileritas pensavam. Mas, um pequeno grupo de crentes desapontados descobriram nova luz bíblica – a verdade de que Cristo entrou na fase final de Seu ministério sumo-sacerdotal no santuário celestial, após o qual Ele vai finalmente voltar para redimir Seu povo. Assim nasceu a Igreja Adventista do Sétimo Dia, com sua fé firmemente ancorada no breve retorno de Jesus e com o compromisso de pregar toda a verdade em Jesus. O ano de 1844 é, de fato, importante para o nascimento do adventismo.

Mas, 1844 é de interesse em outras áreas também. Movimentos surpreendentes e destrutivos à fé surgiram no panorama mundial na mesma época, formando um cenário de desafio e urgência para a proclamação adventista, e chamando os habitantes do mundo a olhar para a genuína verdade acerca de Deus e Seu papel no final da história humana. Examinaremos três desses movimentos.

O surgimento do marxismo

Em agosto de 1844, Frederick Engels se encontrou com Karl Marx em Paris e eles se tornaram parceiros numa luta revolucionária – “um relacionamento duradouro que iria mudar o mundo”, como disse alguém.4

Enquanto os cristãos que acreditavam na Bíblia pregavam que Jesus logo iria voltar para levar Seu povo para o céu e pôr fim ao pecado e sofrimento e prover paz e felicidade eternas, Marx e Engels estavam proclamando que o caminho para a verdadeira felicidade era eliminar Deus da vida; que o caminho para a paz e segurança era através dos princípios do socialismo e comunismo; que eles podiam e haveriam de libertar os cativos do mundo e promover uma sociedade harmoniosa e sem divisão de classes na terra.5 Marx e Engels, portanto, tentaram direcionar a esperança humana para longe da segunda vinda de Cristo, para uma utopia comunista sob a qual milhões foram subjugados na maior parte do século passado.

No contexto desse desafio, o movimento do advento de 1844 foi conclamado a proclamar o evangelho eterno do santuário celestial onde todas as nossas esperanças devem estar ancoradas.

Dispensacionalismo e falsas noções de salvação

Enquanto o grande despertar do segundo advento estava se alastrando por muitos países, um pregador evangélico europeu itinerante chamado John Nelson Darby começava a disseminar uma nova teoria acerca da segunda vinda de Jesus. Enquanto pregava na Suíça, Darby desenvolveu a teoria do “dispensacionalismo” – uma teoria que divide a história em sete eras ou dispensações, desde a era da inocência antes da queda à era da restauração no fim dos tempos. Embora Darby insistisse que havia extraído sua doutrina do dispensacionalismo da Bíblia somente, entre 1843 e 1845 ele introduziu uma surpreendente inovação – o arrebatamento secreto.6 A teoria do arrebatamento secreto ensina que Cristo virá em segredo, arrebatará os santos e os levará para o céu.

Um comentário moderno desse arrebatamento secreto é a agora famosa série de livros Deixados para Trás, da qual mais de sessenta milhões de cópias já foram vendidas em todo o mundo. Os autores desses livros populares argumentam que embora milhões serão deixados para trás durante o arrebatamento, eles não serão deixados sem esperança. Eles terão uma segunda chance de salvação. Tim LaHaye e Jerry Jenkins, dois autores da série Deixados para Trás, promovem diretamente a teoria da “segunda chance”:

“Milhões de homens, mulheres, meninas e meninos vão reconhecer que, embora eles perderam o arrebatamento e assim terão de enfrentar os terrores da tribulação, Deus ainda os chama, anelando por vê-los ao Seu lado… Nós cremos que esses ‘santos da tribulação’ podem muito bem ser contados aos bilhões. E não se esqueça: cada um desses novos crentes terá sido deixado para trás depois do arrebatamento precisamente porque ele ou ela tinha (até aquele ponto) rejeitado a oferta de salvação de Deus. Mas, mesmo então, o Senhor não desistirá dele.”7

Essa é a parte mais alarmante e perigosa da teoria do arrebatamento – a crença de que pessoas terão uma segunda chance de salvação. A Bíblia, porém, em nenhum lugar ensina o arrebatamento secreto e muito menos uma segunda chance de salvação após a morte. O ensino consistente da Escritura é que o segundo advento de Jesus vai ocorrer apenas como um único grande evento: ele será pessoal e literal (Atos 1:11), visível e audível (Apocalipse 1:7; I Tessalonicenses 4:16), glorioso e triunfante (Mateus 24:30), cataclísmico (Daniel 2:44; 2 Pedro 3:10) e repentino (Mateus 24:38, 39, 42-44). Vários sinais, alguns dos quais inclusive já ocorreram, hão de preceder esse evento, no mundo natural (Apocalipse 6:12-13), no mundo moral com o aumento da ilegalidade e corações saturados do pecado (Mateus 24:37-39), e no mundo religioso com falsos profetas enganando a muitos (vs. 24).

Quando todos os sinais que apontam para o segundo advento tiverem sido cumpridos, então Jesus voltará – para reunir Seu povo, para ressuscitar os justos mortos, para transformar e receber todos os santos, para destruir os poderes maus e perversos, para vindicar o caráter de Deus, para restaurar a terra e para restabelecer a comunhão com Deus! A linguagem bíblica acerca da segunda vinda não dá margem para um arrebatamento secreto.

As Escrituras também não falam de uma segunda chance de salvação após a morte. A posição bíblica é clara: depois da morte, não há nenhuma possibilidade de uma segunda chance; existe apenas um julgamento. “O homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo” (Hebreus 9:27 – NVI).

Porém, quão sinistra e quão sutil é a teoria do arrebatamento. Definitivamente, trata-se de um atentado ao cristianismo, um assalto à preciosa doutrina da salvação e da segunda vinda de Cristo.8

Seria apenas um acidente Deus ter escolhido o movimento do advento em 1844, para proclamar as genuínas verdades da segunda vinda e do juízo, mais ou menos na mesma época em que tais doutrinas enganadoras, como o arrebatamento secreto e o dispensacionalismo, entraram em cena no mundo?

Darwin e o surgimento da evolução naturalística

Depois de cinco anos de uma viagem científica a bordo do navio HMS Beagle, Charles Darwin voltou para casa na Inglaterra em 1836. A viagem o levou a “pensar muito acerca da religião” e ele começou a “descrer no cristianismo como uma revelação divina”.9 Mais tarde, Darwin declarou: “Em junho de 1842, eu primeiro tive a satisfação de escrever um breve resumo da minha teoria [da evolução] a lápis em 35 páginas; esse resumo foi ampliado no verão de 1844 para 230 páginas.” Assim começou A Origem das Espécies de Darwin, um livro que revolucionou o pensamento científico e marcou o início da negação do relato bíblico da criação.

Todavia, naquele mesmo ano de 1844, Deus estava trazendo à luz uma verdade bíblica por muito tempo negligenciada: o sábado, que celebra Deus como o Criador. Uma denominação relativamente pequena, os Batistas do Sétimo Dia da América do Norte, haviam se preocupado bastante em 1843 com a ameaça da recente legislação quanto ao domingo, que poderia afetar suas liberdades. Assim, eles se dedicaram a orar e a se envolver mais ativamente em favor do sábado do sétimo dia, separando um dia em 1843 e, mais tarde, outro em 1844 para jejum e oração, para que Deus Se “levantasse e defendesse Seu santo sábado”.

No inverno de 1844, uma senhora chamada Rachel Oakes, uma batista do sétimo dia de Nova Iorque, estava visitando a filha em New Hampshire. Lá, ela visitou a Igreja Cristã Washington, onde um serviço de comunhão estava sendo ministrado por Frederick Wheeler, um ministro metodista que havia aceitado a mensagem milerita. A Sra. Oakes ficou surpresa ao ouvir Wheeler dizer: “Todo aquele que confessar comunhão com Cristo numa cerimônia como esta deveria estar disposto a obedecer a Deus e guardar Seus mandamentos em todas as coisas.” Quando o Pr. Wheeler visitou a família Oakes pouco tempo depois, a Sra. Oakes lhe disse que ela quase se levantara aquele dia na igreja para lhe dizer que seria melhor para ele não participar da cerimônia enquanto ele mesmo não estivesse disposto a guardar todos os mandamentos de Deus, incluindo o sábado.”

Ao voltar para casa, Frederick Wheeler estudou sinceramente sua Bíblia, e algumas semanas depois, aceitou o ensino bíblico acerca da santidade do sétimo dia, o sábado, e pregou seu primeiro sermão sobre o assunto em março de 1844. Muitos membros de sua igreja abraçaram a verdade do sábado. Das sessenta ou mais pessoas daquela vizinhança que experimentaram o grande desapontamento de 1844, umas quarenta aceitaram a doutrina do sábado e mais tarde se tornaram membros da primeira igreja adventista a guardar o sábado.

Outro pregador milerita, um batista chamado Thomas Preble, ouviu que a mensagem do sábado estava sendo pregada em New Hampshire, e decidiu investigá-la. Ele também, em agosto de 1844, abraçou a verdade do sábado. Cerca de quatro meses após o grande desapontamento, Preble escreveu um artigo acerca do sábado no periódico milerita The Hope of Israel. José Bates, um capitão de navio aposentado, leu-a e não só aceitou o sábado como também passou a publicar uma série de artigos sobre o assunto. Desse tempo em diante, José Bates, um dos fundadores da Igreja Adventista do Sétimo Dia, tornou-se um líder na proclamação da mensagem do sábado. Como se sabe, a questão do sábado era tão importante que se tornou parte do próprio nome da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Ellen White falou diretamente da importância do sábado em destacar um Deus-Criador. “A suposição infiel de que os eventos da primeira semana requereram sete períodos de tempo vastos e indefinidos para que se completassem atinge o sábado do quarto mandamento diretamente em sua base.”10

Seria mera coincidência Deus ter levantado uma igreja, para que pregasse a verdade do sábado e o poder criador divino, ao mesmo tempo em que Darwin escreveu sua teoria evolucionária negando a atividade criadora de Deus? A mensagem dos três anjos de Apocalipse 14 e o compromisso adventista de proclamá-la seriamente, como a advertência final de Deus ao mundo, não são mero acaso. Na verdade, são parte do plano de Deus para o fim dos tempos.

O cientista adventista Ariel Roth comenta o seguinte desafio: “Nossa confiança de que a Bíblia é a Palavra de Deus não dá espaço para alternativas à criação [bíblica] tais como uma criação progressiva, evolução teística, ou evolução naturalística. Não deveríamos nos envolver em especulações infrutíferas. Como ‘o povo do Livro’, nós temos uma oportunidade sagrada de apresentar toda a Bíblia, incluindo sua mensagem da criação, para um mundo que está desorientado quanto à grande questão de como começou a vida sobre a terra.”11

Nada a temer quanto ao futuro

Em nossa breve, mas esclarecedora viagem de volta aos anos de 1840, nós recapitulamos o surgimento de alguns dos maiores movimentos globais – marxismo, dispensacionalismo e evolucionismo – que desafiaram importantes verdades acerca de Deus nesses tempos finais. Além disso, deveríamos também ter examinado outros importantes eventos que ocorreram na mesma época, tais como o surgimento do espiritismo moderno, o início da religião Bahai no oriente e a emergência do existencialismo na Europa. Mas, a verdade nunca foi deixada sem seus defensores. Deus, em Sua graça e providência, sempre tem levantado um pequeno, mas corajoso, grupo de crentes na Bíblia para descobrir a verdade em sua plenitude e torná-la sua prioridade de missão global e testemunho. Não, 1844 e o surgimento do adventismo não são meros acidentes! São o plano de Deus para manter viva a chama da verdade em meio às trevas de engano que envolveram a história humana por volta da mesma época.
O ano de 1844 e sua grande importância não podem jamais ser minimizados ou esquecidos. O conselho de Ellen White é oportuno: “Ao recapitular a nossa história passada, havendo percorrido todos os passos de nosso progresso até ao nosso estado atual, posso dizer: Louvado seja Deus! Quando vejo o que Deus tem executado, encho-me de admiração e de confiança na liderança de Cristo. Nada temos que recear quanto ao futuro, a menos que esqueçamos a maneira em que o Senhor nos tem guiado, e os ensinos que nos ministrou no passado.”12


  • Ron du Preez (D.Min., Universidade Andrews; Th.D., Universidade do Sul da África) tem atuado como missionário e professor universitário, e atualmente serve como pastor na Associação de Michigan. Este artigo foi adaptado de seu livro No Fear for the Future, distribuído pela Review and Herald Publishing Association, Hagerstown, Maryland, EUA. Ele pode ser contatado pelo e-mail faithethics@yahoo.com

REFERÊNCIAS

1 Veja Le Roy Edwin Froom. The Prophetic Faith of Our Fathers: The Historical Development of Prophetic Interpretation. Washington, D.C.: Review and Herald Publ. Assn., 1954, vol. 4. pp. 443-718 (veja especialmente pp. 699-718).

2 Ellen G. White. O Grande Conflito. 42. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004. p. 423.

3 Ángel Manuel Rodríguez. Handbook of Seventh-day Adventist Theology. Hagerstown, Maryland: Review and Herald Publ. Assn., 2000. p. 375. ↑

4 Disponível em: <http://www.marxists.org/archive/marx/works/1845/holy-family/index.htm> Acesso em: 16 jun. 2004 (página introdutória).

5 Veja, por exemplo: Preface to Marx-Engels Collected Works, vol. 3: Works 1843-1844. Disponível em: <http://www.marxists.org/archive/marx/works/cw/volume03/preface.htm> Acesso em 16 jun. 2004.

6 Clarence B. Bass. Backgrounds to Dispensationalism: Its Historical Genesis and Ecclesiastical Implications. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1960. p. 139. ↑

7 Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins. Are We Living in the End Times? Wheaton, Illinois: Tyndale, 1999. pp. 157-58. ↑

8 Uma refutação da teoria do arrebatamento e crenças relacionadas pode ser encontrada em: Steve Wohlberg. End Time Delusions: The Rapture, the Antichrist, Israel, and the End of the World. Shippensburg, Pennsylvania: Treasure House, 2004; e Hans K. LaRondelle. The Israel of God in Prophecy: Principles of Prophetic Interpretation. Berrien Springs, Michigan: Andrews University Press, 1983. ↑

9 Nora Barlow. The Autobiography of Charles Darwin, 1809-1882. Nova York: Norton, 1958. pp. 85-86. ↑

10 Ellen G. White. Spiritual Gifts. Battle Creek, Michigan: Steam Press of the Seventh-day Adventist Publishing Association, 1864, vol. 3. p. 91. ↑

11 Ariel A. Roth. “Adventism and the Challenges to Creationism.” Adventists Affirm, Spring, 2002. pp. 20-21.
12 Ellen G. White. Mensagens Escolhidas. 3. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1987, vol. 3. p. 196. ↑

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Sem complicação

Fotos: William de Moraes e Fotolia

Para muitos, teologia é complicar o texto bíblico, enchê-lo de floreios, saturar os ouvintes com termos gregos e hebraicos e citar uma lista interminável de especialistas. Isso ajuda a explicar a antipatia que muitos têm por palavras como “hermenêutica” e “exegese”. E é compreensível, pois, via de regra, as pessoas que vão ao culto ou leem um livro sobre a Bíblia estão em busca da Palavra de Deus e não de teorias. Por outro lado, o efeito dessa aversão à teologia tem descambado para o outro extremo: o estudo e a pregação displicentes. Mas, afinal, é possível mesclar erudição e simplicidade? É possível ser profundo intelectualmente e alcançar o coração dos leitores e ouvintes?

Se, de modo geral, academicismo tem sido sinônimo de complicação, essa não é necessariamente uma verdade para teólogos como Alberto Ronald Timm. Suas quase 70 páginas de currículo, os quatro idiomas que fala, os 135 simpósios e conferências de que participou, as 37 viagens culturais que fez, os 27 trabalhos acadêmicos que orientou, os dez livros completos e os mais de 400 artigos que escreveu não tornam o doutor Timm uma pessoa pedante, muito pelo contrário. Embora seus escritos e pregações tenham um conteúdo profundo, a linguagem simples faz com que caiam no gosto do povo.

FUNDAMENTO BÍBLICO
Nascido em São Lourenço do Sul (RS), Alberto Timm, 56 anos, começou cedo a ter contato com a Bíblia. Vindo de uma família descendente de imigrantes alemães, que em 1905 aceitou a mensagem adventista, foi incentivado ao estudo desde seus primeiros anos. “Não tínhamos muitos recursos financeiros, mas algo jamais podia faltar: a literatura denominacional”, lembra. “Tínhamos um número significativo de livros de Ellen White e de outros autores adventistas. Meu pai adquiria cada ano a Meditação Matinal e assinava as cinco revistas denominacionais daquela época. Mesmo antes de eu ser alfabetizado na escola municipal local, meus pais já me haviam dado de presente uma Bíblia com capa de couro e bordas douradas, e minha mãe lia para mim o ano bíblico dos juvenis.” E foi essa base familiar que estabeleceu os alicerces para a futura carreira acadêmica de Alberto.

Após graduar-se em Teologia pelo Instituto Adventista de Ensino (antigo IAE, atual Unasp), em 1981, trabalhou por quatro anos como pastor em Ijuí (RS). Depois, foi chamado para voltar ao campus em que se formou, onde exerceria as funções de diretor do Centro de Pesquisas Ellen G. White e professor de Teologia.

Em 1988, concluiu seu mestrado pelo Seminário Latino-Americano de Teologia (SALT), no próprio IAE, pesquisando sobre a visão dos dispensacionalistas a respeito do fim do mundo. Em 1995, após um período de quase seis anos na Universidade Andrews, em Berrien Springs (EUA), defendeu sua tese sobre o papel do santuário e das três mensagens angélicas na formação das doutrinas adventistas.
Desde então, com o título de PhD em Religião, Alberto Timm se destacou como especialista na história e nas doutrinas da igreja. Essa formação foi fundamental para ele ao retornar para o Brasil e assumir a cátedra no seminário e suas atividades no Centro White. A bagagem acadêmica dele seria muito útil também no combate às “heresias”, uma vez que os movimentos dissidentes tiveram um pico de efervescência na década de 1990 e meados dos anos 2000. Essa inclinação apologética, que se manifestava já nos tempos de distrito, seria uma das marcas registradas do trabalho do teólogo.

E não são somente as doutrinas que ele tem ajudado a “guardar”. Durante o tempo em que esteve no Unasp, fundou o Centro Nacional da Memória Adventista (CNMA), à frente do qual organizou oito simpósios sobre a história do adventismo no Brasil. Três desses eventos resultaram em livros.

Depois de passar apenas um ano na coordenação da pós-graduação em Teologia do centro universitário, em maio de 2007 Alberto Timm foi nomeado reitor do SALT e diretor do departamento que promove os escritos de Ellen G. White na sede sul-americana da igreja. Lá, ele colaborou para um dos maiores programas de incentivo à leitura dos livros de Ellen White: a distribuição da série Conectando com Jesus.

No início de 2012, o doutor Timm deixou o solo sul-americano para iniciar nova etapa em seu ministério. O antigo garoto estudioso do interior gaúcho passaria então a servir como diretor associado do White Estate, na sede mundial adventista, em Silver Spring, Maryland (EUA), função que exerce até hoje.

PERSONALIDADE
Casado com Marly, professora e mestra em educação, que atualmente ocupa o cargo de assistente administrativa do Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral, e pai de três filhos (Suellen, 27 anos; William, 21; e Shelley, 18), o pastor Alberto é o típico “paizão”. Biotipo alemão, com 1,82 metro de altura, daqueles que ficam vermelhos quando riem, ele é dotado de um senso de humor e de uma simpatia que contagiam. É fácil encontrar amigos e ex-alunos que recordam – e até imitam – seu jeito característico de gesticular e falar, repetindo expressões como “ali” e “mas olha!”, com que entremeia suas palestras e a conversação.

Dono de memória retentiva e mente enciclopédica, Timm é capaz de citar de cor inúmeros pensamentos e autores, e até mesmo a página de livros que leu muito tempo atrás. Com ele, uma simples conversa à mesa acaba em uma agradável aula de teologia, história, filosofia ou conhecimentos gerais. Sua simplicidade, seu profundo conhecimento histórico e o engraçado chapéu que costuma usar em suas viagens (fazendo-o parecer um verdadeiro gringo) o tornam uma excelente companhia, especialmente quando se trata de conhecer os lugares importantes da história da igreja.

Com sua visão abrangente do adventismo, Alberto Timm transita bem entre a academia e a liderança da denominação, dois “mundos” que muitos consideram incompatíveis, mas que ele prova ser possível conciliar. Foi assim, como líder e teólogo versátil, que o doutor de cabelos grisalhos conquistou a confiança da igreja à qual já dedicou 33 anos. E, quando questionado sobre os desafios atuais dessa igreja, deixa clara sua principal preocupação: a perda ou diluição da identidade adventista em meio à cultura religiosa e secular atual, problema que abordou no clássico artigo “Podemos ainda ser considerados o ‘povo da Bíblia’?” (Revista Adventista, junho de 2001).

Uma mensagem com firme fundamento bíblico-doutrinário e que reconhece também o valor dos escritos de Ellen White como mensageira do Senhor tem sido a bandeira defendida por Timm ao longo dos anos. E é com um pensamento da escritora que, em sua adolescência, ele aprendeu a admirar e que tanto influenciou sua vida que Alberto resume seu lembrete aos adventistas do Brasil e do mundo: “O Céu vale tudo para nós, e, se o perdermos, tudo perderemos” (Filhos e Filhas de Deus, p. 349).


  • EDUARDO RUEDA é editor associado na Casa Publicadora Brasileira

domingo, 5 de abril de 2015

Celebrando um Legado de Fé: 1915-2015



1º Vídeo Conselho de Um Profeta: Em 1890 Ellen White escreveu uma carta a um jovem pastor. Ela lhe deu um conselho vital para o sucesso de um pregador. Qual conselho foi esse? Que reação essa carta produziu? Nesse vídeo você conhecerá mais sobre essa história.



2º Vídeo Aceitar o Dom Profético: O pastor Albert Timm apresenta o papel do dom profético em meio ao um mundo repleto de filosofias e ideologias que alegam fundamentar-se na Bíblia.



3º Vídeo Canônico e o não canônico A Diferença entre o profeta canônico e o não canônico Que função exerceu Ellen White e qual a sua autoridade em comparação com os profetas dos tempos bíblicos?

 

 4º Vídeo Dom Profético últimos Dias: O que a Bíblia diz sobre a manifestação do dom profético nos últimos dias? A Bíblia não diz que todos os cristãos seriam profetas, mas que o dom profético seria um dom permanente concedido à igreja. Aquele que rejeita a manifestação do dom profético está rejeitando as promessas bíblicas de que assim aconteceria.

 

5º Vídeo Segredos aos Profetas: Deus revela seus segredos aos profetas Ao longo da história humana, nos momentos cruciais em que a verdade e o erro estavam em conflito, o processo de restauração da verdade ocorreu pela assistência do dom profético. Veja alguns exemplos bíblicos históricos dessa afirmação.

   

6º Vídeo Piedade azeda: Ellen White não cria que uma expressão fechada representa a verdadeira religião. Ela dizia que os cristãos deveriam ser as pessoas mais felizes do mundo e quando surgisse uma perplexidade deveriam manter o ânimo entoando um hino de louvor e encorajamento.

   

7º Vídeo Contrato não Assinado: Em 1910 uma editora evangélica propôs um contrato para publicar de maneira exclusiva um livro de autoria de Ellen White. Por que ela não assinou o contrato? Saiba mais assistindo esse vídeo. 



 8º Manifestação Profética: Por que foi necessário uma manifestação profética nos últimos dias? Ellen White não veio para substituir a Bíblia. Seus escritos exaltam as Escrituras e encorajam os cristãos a praticar na vida diária os ensinamentos bíblicos exemplificados por Jesus.

 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

100 anos de um LEGADO DE FÉ



100 anos de um LEGADO DE FÉ

O projeto “Ellen White – 100 Anos de um Legado de Fé” nasceu com o propósito levar mais conhecimento sobre o dom de Profecia na Igreja Adventista do 7° Dia e seu importante papel desde os inícios da Igreja até os dias finais da história. Conheça mais sobre esse projeto assistindo esse vídeo de apresentação.




Outras Ações

  1. Lançamento da Coleção Comemorativa Mensagens de Esperança, que já está chegando às livrarias da CASA e do SELS em todo o Brasil. No território da DSA serão mais de 400 mil coleções vendidas por um preço simbólico de R$ 10,00, graças a subsídios da DSA, Uniões, Campos e Casa Publicadora.
  2. Programa 10 Dias de Oração e 10 Horas de Jejum de 19 a 28 de Fevereiro terá como material de estudo a revista “Reavivados Pela Oração”, um excerto de capítulos do livro Prayer de Ellen White. Livro ainda não publicado no Brasil.
  3. Testemunho dos pastores Jim Nix e Alberto Timm (Diretor e Dir. Ass. do White Estate da AG) em vídeos curtos que serão veiculados no site www.adventistas.org à partir de março. O conteúdo: Curiosidades e histórias da vida de Ellen White.
  4. Simpósio Bíblico Teológico no UNASP EC nos dias 30/04 a 04/05 sobre o tema: Ministério e legado de Ellen White.
  5. Ao longo a CPB lançará vários livros sobre Ellen White. Livros para juvenis, adolescentes e adultos.
  6. A TV Novo Tempo lançará um especial, do quarteto Arautos do Rei e Pr. Ivan Saraiva sobre o ministério de Ellen White. Material de excelente qualidade gravado nos lugares históricos da IASD nos EUA.
  7. Departamentos da Igreja que promoverão a leitura e estudo dos escritos de EGW.

  • JA – Concurso E Game “Ellen White” aplicativo que premiará o vencedor com uma viagem às sites históricos da IASD nos EUA.
  • Desbravadores  – Especialidade “Mensageira do Senhor.
  • Ministério da Criança e Adolescentes – Histórias da vida de Ellen White nos momentos de Adoração Infantil.
  • Ministério da Família – Estudo do livro “Orientação da Criança” no projeto Adoração em Família.
  • Ministério da Mulher – A Meditação da Mulher de 2015 apresenta várias histórias da vida de Ellen White.
  • Associação Ministerial – Os pastores adventistas receberão o livro Ministério Adventista uma compilação das mensagens de Ellen White para ministros.

terça-feira, 10 de março de 2015

Demora (im)prevista


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O ano de 2014 tem um significado especial para o calendário daqueles que aguardam o fim do mundo. Em 22 de outubro de 2014, faz 170 anos que um grupo de milenaristas cristãos, incendiados pela pregação de Guilherme Miller, se reuniu para lançar seus olhares esperançosos em direção às nuvens, aguardando a chegada gloriosa e cronometrada de Cristo.

No entanto, assim como ocorreu com os discípulos (Lc 24:21), os mileritas ficaram decepcionados e precisaram racionalizar a não realização do sonho. A partir daí, o tema da demora do advento nunca abandonou seus futuros herdeiros proféticos, os adventistas. Mesmo depois de 1844, se você fizesse uma entrevista com qualquer um dos pioneiros e perguntasse: “Você  acredita que Jesus estará aqui em 1900?”, ouviria a resposta: “Ele voltará muito antes disso!” Contudo, Cristo ainda não veio. Como resolver o problema? Quando dizemos que “o fim está próximo”, mas o fim não chega, o que fazer?

Tensão paradoxal

Desde os primórdios da religião bíblica, manter em equilíbrio o fogo da iminência e o gelo da tardança não tem sido tarefa fácil. As duas coisas coexistem em tensão paradoxal. No livro The Delay, Marvin Moore sugere que a espera começou no próprio Céu. Deus havia planejado ampliar a criação e exaltar o Filho, mas a revolta de Lúcifer alterou os planos. Em nome do amor, o Criador não destruiu os anjos rebeldes de imediato. Deus esperou e ainda está esperando.
Na Terra, a espera continuou com a expectativa pela semente da mulher (Gn 3:15). Mais tarde, o patriarca Abraão teve que esperar o filho prometido até os cem anos. Em certo sentido, ele se tornou um paradigma da espera.

No tempo dos profetas do Antigo Testamento, a manifestação final de Deus para trazer julgamento para os maus e recompensa/proteção para os bons era indicada pela expressão “dia do Senhor” (Yom Yahweh), que não queria dizer um dia específico de 24 horas, mas um evento escatológico. E a urgência/iminência já estava presente: “o dia do Senhor está perto” (Is 13:6, 9); “o dia do Senhor está próximo” (Ez 30:3); “sim, o dia do Senhor está próximo” (Jl 1:15; 2:1; 3:14); “pois o dia do Senhor está próximo para todas as nações” (Ob 1:15); “o grande dia do Senhor está próximo; está próximo e logo vem” (Sf 1:14; 1:7).

Então, por volta do 2º século a.C., um novo movimento começou a lidar de modo mais intenso com o fator tempo em conexão com a esperança do dia do Senhor. Desde o início, os autores apocalípticos tinham consciência do problema da demora. Esse gênero surgiu do profetismo e, com acentuado toque escatológico e imaginação viva, olhava para o futuro, o clímax da história, um tempo em que Deus interviria na ordem mundial para dar sentido às coisas e inaugurar a eternidade. Porém, esse dia nunca surgia no horizonte.

Com a chegada do Messias, o problema foi “transferido” para os cristãos. Ao ir para o Céu, Jesus prometeu que voltaria – e logo. A iminência da segunda vinda de Cristo é destacada em todo o Novo Testamento. Para constatar que esse evento glorioso estava no radar dos primeiros cristãos, basta conferir algumas afirmações: “a noite está quase acabando; o dia logo vem” (Rm 13:12); “perto está o Senhor” (Fp 4:5); “se aproxima o Dia” e “em breve, muito em breve ‘aquele que vem virá, e não demorará’” (Hb 10:25, 37); “a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5:8); “o fim de todas as coisas está próximo” (1Pe 4:7); “esta é a última hora” (1Jo 2:18); “venho em breve” (Ap 3:11). E os “pais” da igreja, como Justino Mártir, Cipriano e Agostinho, continuaram com a mesma retórica sobre a proximidade do fim. Será que todos eles estavam errados em suas expectativas?

Albert Schweitzer sugeriu que o próprio Jesus pensava que Sua morte desencadearia a inauguração imediata do reino messiânico, e Paulo teria incorrido num erro parecido. Para o teólogo Ben Witherington, Jesus e Paulo não defenderam que o fim do mundo ocorreria em seu tempo, mas que era iminentemente possível. A linguagem da iminência era para alertar sua audiência sobre a necessidade de se preparar e vigiar.
Na verdade, Cristo falou da proximidade do reino, mas frisou a indefinição do elemento tempo, o caráter súbito do acontecimento e a necessidade do preparo contínuo (Mt 24:36, 42 ). Ele focalizou mais o quem, o que e o como do que o quando. Sua ênfase estava no preparo. Falar do quando não traz o quando (advento) nem produz uma experiência espiritual sólida.

Em parte, a explicação para as afirmações escatológicas de Cristo está no fato de Ele ter misturado elementos da conflagração de Jerusalém com sinais do fim do mundo. Para os judeus, a destruição da cidade santa e do templo simbolizava o fim de uma era (aion).

Os autores do Novo Testamento consideravam a parousia (ver o quadro) um evento iminente, “à mão”, mas não fizeram nenhuma tentativa de estabelecer uma data precisa. De acordo com o estudioso bíblico Bruce Malina, os povos mediterrâneos do 1º século tinham um modelo diferente do tempo. Basicamente, eles estavam preocupados com o “hoje”, e não com o futuro, que pertence a Deus. Por isso, evitavam especular sobre o amanhã.

Respostas complexas

A rigor, a demora não tinha e não tem que ver apenas com o fator tempo, o não cumprimento de uma profecia, a esperança frustrada ou o desejo humano de desfrutar logo os prazeres do Céu, mas com algo mais complexo. No âmago da demora está o que os teólogos e filósofos chamam de “teodiceia”, a tentativa de explicar a bondade e o poder de Deus em face da proliferação do mal no mundo.

“A questão da demora é a versão apocalíptica do problema do mal”, escreveu já na década de 1980 o teólogo inglês Richard Bauckham, um dos mais argutos intérpretes dos primórdios do cristianismo. Para os apocalípticos, o problema do mal será resolvido quando chegar o fim do mundo, pois Deus julgará todos os atores do teatro humano e fará justiça geral. Contudo, se esse dia não chega, o dilema não é resolvido.

Como pode um Deus bom e todo-poderoso permitir que a situação do mundo chegue a esse ponto, sem aparentemente tomar nenhuma atitude? Se a situação é demais para nosso senso de justiça, imagine para Deus! Então, por que Ele não faz nada? Um Deus justo precisa agir rápido. Isso cria o senso de iminência. Porém, Deus demora, o que leva ao grito repetido nas Escrituras: “Até quando, Senhor?” Por que o relógio divino está “atrasado”? Aqui entram as várias respostas dadas ao longo dos séculos:

  1. Impossibilidade. Cristo não vem. Tudo é ilusão. O mundo social é um reflexo do mundo natural, que permanece do mesmo jeito desde o início. Essa é a resposta do ceticismo. De acordo com o apóstolo Pedro (2Pe 3:3, 4), os escarnecedores dos últimos tempos teriam tal postura.
  2. Agenda. Para ocorrer a demora, é preciso haver uma data estabelecida; como o Novo Testamento não estabelece nenhum tempo, falar em “demora” e “tardança” seria impróprio.
  3. Tempo divino. Para Deus, o tempo é diferente. A perspectiva divina é mais ampla. O período de mil anos em nosso calendário é como se fosse um dia no calendário divino. Devemos ver o tempo pelo calendário divino. O apóstolo Pedro (2Pe 3:8) apela para esse argumento.
  4. Paciência. Deus não quer que “ninguém pereça” (2Pe 3:9) e, por isso, espera além do que parece razoável.
  5. Condicionalidade. A profecia da volta de Jesus é incondicional, mas o tempo depende das circunstâncias. Como não existem mais profecias com data pré-estabelecida (Ap 10:6), a hora do evento depende de outros fatores.
  6. Maldade. Na visão de alguns, o grau de maldade do mundo ainda não atingiu o estágio suficiente para ser objeto da ira divina.
  7. Evangelização. Quando o evangelho for pregado em todo o mundo, então virá o fim (Mt 24:14). Isso ainda não ocorreu.
  8. Perfeição. Deus está esperando que Seu povo atinja um nível mais elevado de santidade. “Quando o caráter de Cristo se reproduzir perfeitamente em Seu povo, então virá para reclamá-los como Seus”, é a frase de Ellen G. White (Parábolas de Jesus, p. 69) preferida dos defensores deste ponto de vista.
  9. Soberania. Deus fixou a data desde a eternidade (At 17:31; 2Pe 2:3). Porém, em Sua sabedoria, preferiu não revelá-la, a fim de que não desanimemos, uma vez que a espera é longa. Ele postergou a data já no momento de estabelecê-la. A espera é pré-determinada, não pós-estabelecida.
  10. Grande conflito. Deus quer que o Universo conheça Seu caráter e, por isso, está esperando o momento certo para colocar o ponto final na história do pecado. Destruir o mundo antes da hora poderia danificar Sua imagem. A espera/demora nasceu com o grande conflito e terminará com ele.


No fim das contas, várias dessas respostas têm mérito, e a tardança se deve a uma série de motivos. A demora estava prevista (Mt 25:5) e, portanto, não se pode falar em atraso da parte de Deus. O importante é ter a atitude certa. Pensar que a culpa é nossa só piora as coisas, pois coloca o foco em nós em vez de Deus. A boa notícia é que, assim como Isaque, Cristo aparecerá por um milagre divino. Esperar o Filho é um teste de fé.


A resposta da esperança ainda é a mesma do profeta Habacuque (2:3): “Se demorar, espere!” Não se preocupe! No tempo certo, o Senhor vai refazer o mundo e a sociedade, numa mudança radical com reflexos em escala cósmica. Deus está de olho no grande relógio da história. Sem cair no erro de marcar data, você pode ter a certeza de que a demora está quase terminando!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

FILOSOFIA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA COM RELAÇÃO À MÚSICA


Deus compôs a música exatamente na estrutura de Sua criação. Lemos que quando Ele criou todas as coisas “juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo” (Jó 37:8). O Livro do Apocalipse retrata o céu como um lugar de louvor incessante, com hinos de adoração a Deus e ao Cordeiro ressoando de todas as partes (Apocalipse 4:9-11; 5:9-13; 7:10-12; 12:10-12; 14:1-3; 15:2-4; 19:1-8).

Visto que Deus criou os seres humanos à Sua imagem, partilhamos do amor e apreciação pela música com todos Seus seres criados. Na verdade, a música pode nos atingir e tocar com um poder que vai além das palavras ou qualquer outro tipo de comunicação. Na sua forma mais pura e melhor, a música eleva nosso ser à presença de Deus onde anjos e seres não caídos o adoram com cânticos.

Porém, o pecado lançou sua praga sobre a Criação. A imagem divina foi desfigurada e por pouco apagada. Em todos os aspectos, este mundo e as dádivas de Deus vêm a nós com uma mistura de bem e mal. A música não é moral nem espiritualmente neutra. Pode nos levar a alcançar a mais exaltada experiência humana, pode ser usada pelo príncipe do mal para degenerar e degradar, para suscitar a luxúria, a paixão, desesperança, ira e ódio.

A mensageira do Senhor, Ellen G. White, continuamente nos aconselha a elevar nosso conceito a respeito da música. Ela nos diz: “A música, quando não abusiva, é uma grande bênção; mas quando usada erroneamente, é uma terrível maldição” (O Lar Adventista, pág. 408). “Corretamente empregada, porém, é um dom precioso de Deus, destinado a erguer os pensamentos a coisas altas e nobres, a inspirar e elevar a alma” (Educação, pág. 167).

Quanto ao poder da música, ela escreve: “É um dos meios mais eficazes para impressionar o coração com as verdades espirituais. Quantas vezes, ao coração oprimido duramente e pronto a desesperar, vêm à memória algumas das palavras de Deus – as de um estribilho, há muito esquecido, de um hino da infância – e as tentações perdem o seu poder, a vida assume nova significação e novo propósito, e o ânimo e a alegria se comunicam a outras pessoas! … Como parte do culto, o canto é um ato de adoração tanto como a oração. Efetivamente, muitos hinos são orações. … Ao guiar-nos nosso Redentor ao limiar do Infinito, resplandecente com a glória de Deus, podemos aprender o assunto dos louvores e ações de graças do coro celestial em redor do trono; e despertando-se o eco do cântico dos anjos em nossos lares terrestres, os corações serão levados para mais perto dos cantores celestiais. A comunhão do Céu começa na Terra. Aqui aprendemos a nota tônica de seu louvor” (Educação, pág. 168).

Como adventistas do sétimo dia cremos e pregamos que Jesus virá novamente, em breve. Em nossa proclamação mundial da tríplice mensagem angélica, de Apocalipse 14:6-12, conclamamos a todas as pessoas a aceitarem o evangelho eterno para louvar a Deus o Criador, e a prepararem-se para encontrar o Senhor. Desafiamos a todos que escolhem o bem e não o mal a renunciarmos “à impiedade e às paixões mundanas, [vivermos] no presente mundo sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tito 2:12, 13).

Cremos que o evangelho exerce impacto em todas as áreas da vida. Por conseguinte, sustentamos que, dado o vasto potencial da música para o bem ou para o mal, não podemos ser indiferentes a ela. Embora reconhecendo que o gosto, na questão da música, varia grandemente de indivíduo para indivíduo, cremos que a Bíblia e os escritos de Ellen G. White sugerem princípios que podem formar nossas escolhas.

“Música sacra”, é uma expressão usada neste documento, normalmente referindo-se à música religiosa. Designa à música que se centraliza em Deus, em temas bíblicos e cristãos. Na maioria dos casos é música composta para ser utilizada nos cultos, nas reuniões de evangelismo ou na devoção pessoal e pode ser música vocal e instrumental. No entanto, nem toda música considerada sacra ou religiosa, pode ser aceitável para um adventista do sétimo dia. A música sacra não deve evocar associações seculares ou convidar a conformação com normas de pensamento ou comportamento da sociedade em geral.

“Música Secular” é uma música composta para ambientes alheios ao serviço de culto ou de devoção pessoal e apela aos assuntos comuns da vida e das emoções básicas do ser humano. Tem sua origem no homem e é uma reação do espírito humano para a vida, para o amor e para o mundo em que Deus nos colocou. Pode elevar ou degradar moralmente o ser humano. Embora não esteja destinada a louvar a Deus, pode ter um lugar autêntico na vida do cristão. Em sua escolha devem ser seguidos os princípios apresentados neste documento.

Princípios que Orientam o Cristão

A música com a qual se deleita deve ser regida pelos seguintes princípios:

 Toda música que se ouve, toca ou compõe, quer seja sacra ou secular, deve glorificar a Deus. “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais, qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus” (I Corintios 10:31). Este é o princípio bíblico fundamental. Tudo o que não atende a esse elevado padrão irá enfraquecer nossa experiência com Ele.

Toda música que o cristão, ouve, toca ou compõe, quer seja sacra ou secular, deve ser a mais nobre e melhor. “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses 4:8). Como seguidores de Jesus Cristo, que aguardam e esperam unir-se ao coro celestial, vemos a vida nesta terra como um preparo para a vida no céu e uma antecipação dela.

Desses dois fundamentos “glorificar a Deus em todas as coisas e escolher o mais nobre e o melhor “ dependem os demais princípios relacionados abaixo para a escolha musical.

A música se caracteriza pela qualidade, equilíbrio, adequação e autenticidade. A música favorece nossa sensibilidade espiritual, psicológica e social, como também o nosso crescimento intelectual.

A música apela tanto ao intelecto como às emoções, afetando o corpo de forma positiva.
A música revela criatividade e obtém melodias de qualidade. Se harmonizada; deve ser usada de uma forma interessante e artística, com um ritmo que as complemente.

A música vocal emprega versos que estimulam positivamente a capacidade intelectual como também nossas emoções e nosso poder da vontade. Os bons versos são criativos, ricos no conteúdo e bem compostos. Focalizam no positivo e refletem os valores morais; instruem e enaltecem; e estão em harmonia com a sólida teologia bíblica.

Os elementos musicais e literários operam juntos e harmoniosamente para influenciar o pensamento e o comportamento em concordância com os valores bíblicos.

A música mantém judicioso equilíbrio dos elementos espiritual, intelectual e emocional.

Devemos reconhecer e aceitar a contribuição de culturas diferentes na adoração a Deus. As formas e instrumentos musicais variam grandemente na família mundial adventista do sétimo dia, e a música proveniente de uma cultura pode soar e parecer estranha a outra cultura.

Fazer música adventista do sétimo dia envolve a escolha do melhor. Acima de tudo nos aproximamos e glorificamos ao nosso Criador e Senhor. Vamos aceitar o desafio de termos uma visão musical diferenciada e viável, como parte de nossa mensagem profética, dando assim uma contribuição musical adventista importante e mostrando ao mundo um povo que aguarda a breve volta de Cristo.

ORIENTAÇÕES COM RELAÇÃO À MÚSICA PARA A IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA NA AMERICA DO SUL

A igreja Adventista do Sétimo Dia surgiu em cumprimento à profecia. Foi escolhida como um instrumento divino para proclamar, a todo o mundo, as boas novas de salvação, pela fé no sacrifício de Cristo, e obediência aos Seus mandamentos, com o objetivo de preparar um povo para o retorno de Jesus.

A vida daqueles que aceitam essa responsabilidade deve ser tão consagrada como sua própria mensagem. Esse princípio se aplica, de maneira especial, àqueles que, através da música, tem a missão de conduzir a igreja de Deus na adoração, no louvor e na evangelização, pois. “A música só é aceitável a Deus quando o coração é consagrado e enternecido e santificado”. (Ellen White, Carta 198-1895) É preciso primeiro receber para depois oferecer. É preciso ter um compromisso pessoal com a mensagem, para depois poder transmiti-la. É preciso ter um encontro com Deus, para então reconhecer a santidade e a importância de cada acorde musical.

Diante dessa realidade, aqueles que produzem, selecionam ou executam a música usada na igreja, necessitam de muita comunhão, sabedoria, orientação e apoio. Precisam ter a visão da grandeza do ministério que tem nas mãos, bem como o máximo cuidado ao fazerem suas escolhas. “Não é suficiente conhecer os rudimentos do canto; porém, aliado ao conhecimento, deve haver tal ligação com o céu que os anjos possam cantar através de nós”. (Ellen White, Manuscrito de maio de 1874).

A música é um dos maiores dons dados por Deus e, por isso mesmo, se constitui em um elemento indispensável no processo de crescimento cristão. “A música é um dos grandes dons que Deus concedeu ao homem, e um dos elementos mais importantes num programa espiritual. É uma avenida de comunicação com Deus, e é um dos meios mais eficazes para impressionar o coração com as verdades espirituais”. (Ellen White, Educação, 167)

Ela exerce influência sobre assuntos de consequências eternas. Pode elevar ou degradar, e ser empregada tanto para o bem como para o mal. “Tem poder para subjugar naturezas rudes e incultas, poder para suscitar pensamentos e despertar simpatia; para promover a harmonia de ação e banir a tristeza e os maus pressentimentos, os quais destroem o ânimo e debilitam o esforço” (Ellen White, Educação, 167).

A música é um dos elementos mais importantes em cada programa da igreja, e por isso deve ser utilizada sempre de maneira edificante. “O Canto é um dos meios mais eficazes para gravar a verdade espiritual no coração. Muitas vezes se tem descerrado pelas palavras do canto sagrado, as fontes do arrependimento e da fé”. (Ellen White, Evangelismo, 500)

Buscando o crescimento da música, de cada músico e da igreja é que são apresentadas as orientações a seguir. Elas são um complemento aos princípios apresentados pela Associação Geral, e devem direcionar a Música dentro da Igreja Adventista na América do Sul. Sua aceitação vai proporcionar sábias escolhas, o cumprimento da missão e a conquista de melhores resultados.

Tendo em vista identificar corretamente o papel da música e dos músicos dentro da igreja, toda a atividade musical da igreja deverá ser chamada de Ministério da Música. Desta forma, os músicos passarão a ter uma visão clara de seu papel como Ministros, e a igreja, uma visão clara da música, seu objetivo e sua mensagem, como um ministério.

I. O Músico

Deve cultivar uma vida devocional à altura de um cristão autêntico, baseada na prática regular da oração e da leitura da Bíblia.

Sua música precisa ser uma expressão do encontro pessoal com Jesus.

Trata a música como uma oração ou um sermão, preparando-se espiritualmente para cada apresentação (Ellen White, Evangelismo, 508).

Deve representar corretamente, em sua vida, os princípios da igreja e refletir a mensagem das músicas que apresenta.

Necessita estar integrado à vida da igreja como mordomo fiel.

Deve ser batizado, em harmonia com os princípios da igreja, e membro ativo de uma igreja local.

Precisa construir, em todas as suas atividades, a visão de ministro e não de artista. Não destaca sua imagem pessoal, mas a mensagem que necessita transmitir.

Cuida de sua aparência pessoal, para que reflita o padrão de modéstia e decência apresentado pela Bíblia.

A cada apresentação procura fazer seu melhor, evitando cair na monotonia da repetição de um repertório.

Canta com entoação clara, pronúncia correta e perfeita enunciação. (Ellen White, Obreiros Evangélicos, 357).

Evita tudo o que possa tirar a atenção da mensagem da música, como gesticulação excessiva e extravagante, teatralização e orgulho na apresentação (Ellen White, Evangelismo, 501).

Evita, em suas apresentações, a amplificação exagerada, tanto vocal como instrumental.

Não usa instrumentos, em seu acompanhamento, que se relacionem com gêneros musicais questionáveis.

Não se assemelha ou personifica um cantor de reputação duvidosa.

Evita o uso de tonalidades estridentes, outras distorções da voz, bem como o estilo dos cantores populares.

Respeita o ambiente da igreja e as horas do sábado ao vender seus materiais.

Não usa sua música para promover shows, ou apenas para promover suas vendas.

Deve receber orientação e apoio espiritual da liderança do Ministério da Música, da liderança da igreja e do pastor.

II. A Música

Deve ser planejada, preparada e praticada, mantendo o equilíbrio entre ritmo, melodia e harmonia.

Glorifica a Deus e ajuda-nos a adorá-lo de maneira aceitável.

Deve harmonizar letra e melodia, sem combinar o sagrado com o profano.

Não segue tendências populares que abrem a mente para pensamentos impuros, que levam a comportamentos pecaminosos ou que destroem a apreciação pelo que é santo e puro. “a música profana ou a que seja de natureza duvidosa ou questionável, nunca dever ser introduzida em nossos cultos”. (Manual da Igreja, 72).

Não se deixa guiar apenas pelo gosto e experiência pessoal. Os hábitos e a cultura não são guias suficientes na escolha da música. “Tenho ouvido em algumas de nossas igrejas solos que eram de todo inadequados ao culto da casa do Senhor. As notas longamente puxadas e os sons peculiares, comuns no canto de óperas, não agradam aos anjos. Eles se deleitam em ouvir os simples cantos de louvor entoados em tom natural“ (Ellen White, Manuscrito 91).

Não se apega exclusivamente ao passado, pois o próprio Deus convida a cantar “um cântico novo” (Salmo 96:1).

Não deve ser rebaixada a fim de obter conversões, mas eleva o pecador a Deus. (Ellen White, Evangelismo, 137). Ellen White diz que “…haveriam de ter lugar imediatamente antes da terminação da graça … gritos com tambores, música e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isto será chamado operação do Espírito Santo. O Espírito Santo nunca Se revela por tais métodos, em tal balbúrdia de ruído. Isto é uma invenção de Satanás para encobrir seus engenhosos métodos para anular o efeito da pura, sincera, elevadora, enobrecedora e santificante verdade para este tempo” (Mensagens Escolhidas, Vol. 2, pág. 36).

Tem melodia e ritmo compatíveis com a mensagem.

Provoca uma reação positiva e saudável naqueles que a ouvem.

III. A Mensagem da Música

Sua mensagem deve ser fácil, bem compreendida e que esteja em harmonia com os ensinamentos da Bíblia.

Deve ter uma letra com valor literário e teológico consistente. Não usa letras levianas, vagas e sentimentais, que apelam somente às emoções, ou que não contém nenhuma mensagem.

Seus versos não são dominados pelos instrumentos de acompanhamento.

Mantém o equilíbrio entre hinos dirigidos a Deus e hinos que contêm petições, apelos, ensinos, testemunhos, admoestações e encorajamento.

Deve evitar ser apresentada em outra língua, que não a nativa, para que possa ser compreendida e os ouvintes edificados.

IV. O Envolvimento da Igreja

Deve ser valorizado o louvor congregacional. Através dele toda a igreja é envolvida. “Nem sempre o canto deve ser feito por apenas alguns. Tanto quanto possível, permita-se que toda a congregação participe” (Ellen White, Testemonies, vol 9, 144). Os momentos de louvor congregacional:

Envolvem a participação de todos no culto.

Harmonizam o coração do homem com Deus.

Exercem uma influência unificadora do povo de Deus em um só pensamento.

Dão oportunidade para expressar as emoções e sentimentos pessoais.

Fortalecem o caráter.

Tem grande valor educacional.

Destacam um bom princípio de mordomia, desenvolvendo um talento dado por Deus.
Dirigem o ouvinte a Jesus.

O louvor congregacional não deve ser utilizado para preencher espaços vagos ou ocupar a congregação antes do início de alguma programação. Deve estar inserido dentro de qualquer culto ou programa, em momento nobre, valorizando sua importância.

O louvor congregacional não deve ser realizado de maneira fria, automática ou despreparada. Os hinos que serão cantados e a mensagem que deverá fazer a ligação entre eles devem ser planejados e inspiradores (Ellen White, Testemunhos Seletos, vol. 1, pág. 457).

O Ministro do louvor deve fazer parte da plataforma, como um dos envolvidos no programa de adoração.

“Raras vezes deve o cântico ser entoado por uns poucos” (Ellen White, Conselhos Sobre Saúde, 481). Por isso, devem ser estimulados grupos musicais que envolvam uma boa quantidade de pessoas.

Deve haver um cuidado especial para não utilizar músicas que simplesmente agradem os sentidos ou tenham ligação com o carismatismo. “Músicas ritmadas são responsáveis por histeria. Envolvem os adoradores em alto grau de excitamento pelo uso de instrumentos como bumbo, tamborins, contrabaixo, rabecas e cornetas. Eu assisti a uma reunião campal em setembro de 1900 que se realizou em Muncie, onde presenciei, pela primeira vez, o uso de músicas dançantes com letra sacra. Havia um excitamento fanático, eles não usavam nosso hinário… Eles gritam ‘Amém’, ‘Louvado seja o Senhor’ e ‘Glória a Deus’. É penoso para a alma de alguém”. (Ellen White, Conselhos Sobre Música, 26)

V. O Uso de Instrumentos

Sempre que possível deve haver instrumental ao vivo, envolvendo a melhor quantidade possível de participantes. Falando do canto, Ellen White recomenda que “… este seja acompanhado por instrumentos de música habilmente tocados. Não nos devemos opor ao uso de instrumentos musicais em nossa obra” (Testemonies, vol. 9, 143).

Os instrumentistas da igreja devem ser, sempre, estimulados a participar dos programas de adoração.

O uso de play-backs deve ser uma alternativa para programas ou situações especiais.

Deve haver bastante cuidado para não serem usados instrumentos fortemente associados com a música popular e folclórica.

Instrumentos de origem duvidosa e que necessitam uso de exagerada amplificação, concorrem com a mensagem da música e comprometem sua pureza. Por isso devem ser evitados.

A prioridade deve ser sempre a mensagem a ser apresentada pela música. O instrumental deverá ocupar seu papel de acompanhamento. “A voz humana que entoa a música de Deus vinda de um coração cheio de reconhecimento e ações de graças, é incomparavelmente mais aprazível a Ele do que a melodia de todos os instrumentos de música já inventados pelas mãos humanas” (Ellen White, Evangelismo, 506).

Orquestras, bandas e outros grupos instrumentais devem priorizar, em suas apresentações, músicas que estejam dentro das recomendações da igreja e que edifiquem seus ouvintes.

VI. Produções Musicais

As produções musicais Adventistas devem se caracterizar pelo destaque dado a nossa mensagem distintiva. A arte deve estar a serviço da mensagem e não o contrário.

Compositores, arranjadores e produtores devem priorizar, valorizar e trabalhar com músicos que estejam comprometidos com os princípios musicais da igreja.

As produções musicais das instituições Adventistas devem ser as guardiãs dos valores musicais da igreja.

Deve ser dado atenção e cuidado especial às produções vendidas nas lojas de propriedade da igreja, para que reflitam os valores apresentados neste documento.

As músicas apresentadas nas rádios e TV de propriedade da igreja devem receber atenção especial e, também, refletir os valores apresentados neste documento. Elas possuem influência destacada, formam a cultura musical da igreja e se tornam uma referência musical da igreja para os ouvintes e telespectadores.

VII. Educação Musical

Como igreja devemos buscar instrução na área de música e desenvolver o gosto pela boa música.

As igrejas devem considerar a possibilidade de apoiar as crianças em seu treinamento musical a fim de preparar futuros músicos e líderes no campo da música. Este estimulo poderá ser dado através de professores de música da própria igreja ou do patrocínio de aulas para algum interessado.

A música deve ser valorizada e bem trabalhada nos lares cristãos. A instrução musical e a apreciação pela boa música devem começar cedo na vida das crianças. Os pais precisam ser o modelo para seus filhos, utilizando em sua casa música de qualidade.

Os pais devem conversar com seus filhos sobre a escolha musical e ouvirem, juntos, música de boa qualidade.

A Educação Adventista deve estimular os alunos no aprendizado de instrumentos musicais, leitura de partituras e cântico vocal em corais ou grupos.

As apresentações musicais em todas as instituições educacionais adventistas do sétimo dia devem estar em harmonia com as diretrizes da Igreja. Isso se aplica aos talentos locais como também a artistas e grupos visitantes, e ainda ao uso da mídia de entretenimento (filmes e outros) patrocinada oficialmente pela instituição.

VIII. A Administração da Música na Igreja

Cada igreja deve ter sua comissão de música devidamente organizada e mantendo reuniões regulares. A administração do Ministério da Música não deve estar nas mãos de apenas uma pessoa.

Devem ser preparadas ou organizadas, palestras, sermões, seminários, festivais de louvor de corais, conjuntos, quartetos, duetos, solistas ou compositores, fortalecendo a orientação e o envolvimento da igreja.

A liderança da igreja deve encorajar seus membros a desenvolverem seus talentos musicais, estabelecendo um coral, quarteto, grupo musical, orquestra ou fortalecendo um talento individual.

Dentro do possível a igreja deve procurar adquirir algum instrumento musical próprio para fortalecer o louvor e a formação musical.

A direção do Ministério da Música deve organizar e providenciar música especial e responsável pelo louvor congregacional para todos os cultos da Igreja.

A saída ou recebimento de grupos musicais ou cantores deve ser acompanhada de uma recomendação oficial da igreja onde é membro. Essa atitude valoriza os bons músicos e traz segurança à igreja.

A música não deve ser motivo, em qualquer situação, de discussões ou atitudes radicais. A busca pelo padrão Divino deve ser guiada pelo amor e oração e não pela imposição.

IX. A Música no Evangelismo

Apresentações musicais especiais devem conter uma mensagem, apelo ou oferta de cursos Bíblicos, visando levar pessoas à decisão por Jesus.

Grupos musicais e cantores devem buscar maneiras de participar das campanhas missionárias e evangelísticas da igreja ou desenvolver seus próprios projetos para cumprir a missão.

X. A Música no Culto

A música faz parte do culto e da adoração a Deus, por isso deve ocupar um lugar tão especial quanto a oração e a mensagem da Bíblia. Ela é um sacrifício de louvor, um meio de promover o crescimento espiritual, de glorificar a Deus e dirigir o ouvinte a pensar nEle.

A música especial ou o louvor congregacional devem estar em harmonia com a mensagem Bíblica que será apresentada. Isso fortalece o seu impacto.

A música para o culto deve ter beleza, emoção e poder (Ellen White, Testemunhos Seletos, vol. I, 457).

A música deve ser escolhida de maneira específica para cada ambiente, programa ou culto da igreja. “Os que fazem do cântico uma parte do culto divino, devem escolher hinos com música apropriada para a ocasião, não notas de funeral, porém melodias alegres e, todavia, solenes” (Ellen White, Evangelismo, 508).

XI. Músicas Seculares

O estilo de vida Adventista do Sétimo Dia requer uma cuidadosa escolha ao selecionar alguma música secular com fins pessoais ou de apresentação pública em algum programa social.

Os princípios de escolha para alguma música não fazem distinção entre o “sagrado” e o “secular”. Em momento algum deixamos de ser filhos e filhas de Deus que buscam glorificá-Lo em todas as coisas. Escolhemos sempre e apenas o melhor.

A escolha da música “secular” deve ser caracterizada por um equilíbrio saudável nos elementos do ritmo, melodia e harmonia com uma letra que expresse ideais de alto valor.

No grupo das músicas “seculares” aceitáveis podem estar: a. Músicas folclóricas que realcem os valores étnico-culturais genuínos e que não enfatizem elementos negativos dos povos. b. Músicas patrióticas. c. Músicas instrumentais de grandes compositores. d. Músicas educativas ou didáticas. e. Cânticos infantis. f. Música Marcial.

No grupo das músicas impróprias devem estar:
Músicas que estimulem a dança, ou que tenham no ritmo o elemento predominante.
Músicas populares de caráter vulgar, sedutor, imoral e pouco refinado.
Músicas que tenham letra incompatível com a mensagem da Bíblia.
Músicas que despertem pensamentos impuros e induzam a uma conduta imprópria.
Músicas de protesto, pois destroem a unidade e o espírito de respeito à autoridade.

Conclusões

Vivemos um momento difícil onde cada vez mais as pessoas e as sociedades expressam sentimentos religiosos sem uma clara orientação cristã e bíblica. A música se tornou uma questão fundamental que requer discernimento e decisão espirituais.

Consequentemente, devemos fazer estas importantes perguntas enquanto buscamos fazer boas escolhas musicais:

A música que estamos ouvindo ou apresentando tem substância moral e profunda quer na letra como na melodia?

Qual é a intenção por trás da música? Ela transmite uma mensagem positiva ou negativa? Quando ouvimos a música, entendemos que ela está em conformidade com o critério que Paulo proferiu em I Corintios 10:31 e em Filipenses 4:8?

O propósito da música está sendo transmitido com eficácia? O músico está promovendo uma atmosfera de reverência? As palavras dizem uma coisa e a melodia outra?
Estamos buscando a orientação do Espírito Santo na escolha da música religiosa e secular?
O conselho Bíblico, dado por Paulo, é claro: “…cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (I Corintios 14:15). Não há dúvida de que a música é uma expressão artística, que toca os sentimentos. Ela deve ser, porém, avaliada, escolhida e produzida de maneira racional, tendo em vista o seu poder, e buscando cumprir o propósito de Deus para a edificação da igreja e salvação do mundo.


Não podemos esquecer que “A música é de origem celestial. Há grande poder na música. Foi a música dos anjos que fez vibrar o coração dos pastores nas planícies de Belém e envolveu o mundo todo. É através da música que os nossos louvores se erguem Àquele que é a personificação da pureza e harmonia. É com música e cânticos de vitória que os redimidos finalmente tomarão posse da recompensa imortal” (Ellen White, Mensagens Escolhidas, vol. 3, 335).