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domingo, 11 de outubro de 2015

O cristão no “The Voice”

Muitos tentam desvestir o pecado da pecaminosidade que lhe é inerente.

Muitos tentam desvestir o pecado da pecaminosidade que lhe é inerente.

Um dia desses assisti por Internet, em um post de amigos meus nas redes sociais, o vídeo de um candidato ao prêmio máximo do reality The Voice Brasil. Uma audição que empolgou aos jurados do programa, que terminaram dançando junto ao aspirante ao estrelato do showbiz. O interessante do vídeo é o fato de que o rapaz é bem conhecido entre os jovens adventistas por ter participado por bons anos de um dos grupos de louvor mais reconhecidos dessa comunidade cristã.

Fui seu contemporâneo por um ou dois anos, durante o tempo em que estudei Teologia. Nunca conversei pessoalmente com ele. Embora seu nome seja bem conhecido, não vou citá-lo por alguns motivos que enumero a seguir: (1) parece claro que sua participação no reality pressupõe haver deixado a Igreja Adventista; (2) não me cabe julgar seus motivos porque, primeiro, não os conheço e, segundo, o coração é jurisdição exclusiva de Deus; e (3) meu artigo não trata exclusiva e pessoalmente dele, mas o toma por base para uma reflexão que, creio, pode e deve ser mais profunda.

Seu comportamento ilustra bem meu argumento. Ao assistir sua desenvoltura corporal e a familiaridade com que incorpora o ritmo, me ponho a pensar como é fácil assumir essa identidade, tenha ele “nascido” ou não na Igreja, como se costuma dizer. E tomo a liberdade – e o atrevimento até – de afirmar que essa não é uma identidade assumida, mas uma identidade tão somente abafada por uma redoma, uma bolha, uma quase camisa-de-força que impõe um padrão de cristianismo que não consegue romper o elo com o que João tão sabiamente advertiu escrevendo em sua primeira epístola: “Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele, porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne e dos olhos, a soberba da vida, não procede do Pai, mas do mundo”.

Hoje em dia, com tamanho bombardeio da Internet e das mídias sociais é impossível imaginar que um jovem não beba dessa fonte criticada por João. Mas, mesmo antes, também era assim. Basta recordar que não se necessita esforço para fazer o dito “mal”, nem perguntar… basta fazer. A ciência do incorreto é inata, nasceu conosco e está bem expressa nas palavras autobiográficas do “homem segundo o coração de Deus”, quando afirma: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe”. Ao passo que para ser uma nova criatura você tem que, necessariamente, ser desintoxicado, desinfetado e passar por uma assepsia de valores e conduta.

Por isso, digo que o jovem não aprendeu a ser tão igual a “eles” no palco do The Voice. Ele e nós, sempre fomos e somos, de alguma maneira, um deles ou um com eles! E assumo o risco dessa afirmação porque vejo na Igreja real, aquela que está além dos tweets, a força com que muitos de nós tentamos manter a vida nos trilhos de Cristo! Não é de admirar que hoje, os jovens entendam o adventismo tão somente como abandonar as carnes ditas imundas ou lutar por manter-se fiel ao sábado abstendo-se de trabalho e estudo nesse dia santo e procurando estar presente nos cultos, muitas vezes só de corpo físico. Mas, será que esse é o alcance do cristianismo advogado por Paulo entre outros tantos? Não é de admirar que depois de cumpridas essas disciplinas sabáticas, os jovens terminem o Dia de Deus no cinema com a galera da Igreja. Não é de admirar que depois de batalhar por uma vaga no emprego dos sonhos, a proposta de trabalho no dia santo já não seja tão resistida assim. Não é de admirar que, roupas, linguagem, estilo de vida, comida e amizades sejam tão próximas ao estilo condenado pelo cristianismo real. Não é de admirar que alguns deles inclusive sejam adeptos das chamadas cervejas sem álcool. Tudo, quase tudo, numa tentativa de desvestir o pecado da pecaminosidade que lhe é inerente. Algo como dizia jocosamente um antigo professor: “Um dia vão criar o porco desporcainado”!

“Pois não me envergonho do Evangelho porque é o poder de Deus para a salvação…” Quando leio essa primeira parte da afirmativa de Paulo, me ponho a pensar que o “poder” está desmerecido em sua capacidade. Há três palavras gregas para “poder” usadas por Paulo: exousia, dinamis e kratos. A que aparece nesse verso tem que ver com “força que é gerada ou originada” por Deus em Cristo, a boa-nova do evangelho! Não é que Cristo tenho perdido a dinamis, nós é que perdemos ou pouco nos apropriamos dessa força geradora de poder. E mais: é um poder que mostra a capacidade transformadora do Evangelho!

Quando eu desisto de me apropriar desse poder me torno presa fácil da natureza intrínseca que estava ali, controlada, medicada pelas doses de cristianismo que a duras penas eu mesmo me impunha. Quando me afasto da fonte, permito brotar aquela pessoa que aflora sem esforço, sem disciplina eclesiástica e sem limites muitas vezes.

Das outras duas palavras, exousia tem que ver com autoridade; e kratos, com força, potência. As três dimensões da palavra “poder” ensinam que não está em nós a capacidade e que essa natureza precisa ser revestida de Cristo como o próprio Paulo expressou na carta aos Gálatas. Quando penso na justificação pela fé, entendo que o Deus do universo aceitou que seu Filho assumisse a nossa natureza! E quando Ele vê um de nós por aqui, enxerga Seu Filho, Sua Justiça, Sua impecabilidade, mas de trás, persiste o eu pecador que só será erradicado para sempre na segunda vinda de Cristo. É o que está expresso uma vez mais pelo apóstolo em 2 Coríntios 5:21, isto é, uma troca. A justiça dele em troca de nossos trapos de imundícia, usando palavras do profeta Isaías…

É triste perceber que o jovem e o seu número artístico não nasceram da apostasia ou afastamento da Igreja. Ele estava ali, mesmo dentro da Igreja, aos sábados e a cada culto, inclusive entregando seu talento em louvor a Deus! O que havia era o equívoco de imaginar que a simples disciplina eclesiástica do sábado, da Igreja, do culto, do louvor, no fundo, representariam uma tentativa de manter inerte ou desabilitado um estado de espírito, uma natureza latente que atos exteriores nunca poderão efetivamente transformar!

O jovem sabe do mundo e das suas concupiscências não porque se alimenta da Internet ou das mídias para conhecê-lo. É claro que isso aumenta o desejo porque a mesma Escritura declara que é pela contemplação que somos transformados. Mas é mais porque nós estamos infectados na corrente sanguínea com o vírus do pecado que é a mancha do leopardo ou a cor de pele do etíope, em figuras usadas por Jeremias, outro dos profetas. Não se pode mudar se Cristo não tomar nossa vida ao ponto de chegarmos a experimentar o que Paulo, mais uma vez, declarou: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. E o viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a Si mesmo se entregou por mim” (Gálatas 2:20).

Penso que antes de crucificar esse ou aquele jovem, nós devíamos passar por essa transformação! A metamorfose que Paulo afirmou em Romanos 12:1-2. Sem essa dimensão é impossível agradar a Deus vivendo pela fé no Filho. O reality show brasileiro mostrando um jovem que “foi” da Igreja nunca foi tão real, pois nos deu a clara demonstração de que nosso cristianismo precisa ser diferente

Por Carlos Henrique Nunes Formado em Teologia, atualmente é pastor na Missão Peruana do Norte. Jornalista profissional há 19 anos, formado pela Unisinos, foi repórter nos jornais Diário Gaúcho e Zero Hora, e professor no curso de Jornalismo do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), campus Engenheiro Coelho.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

VIII – A Escada da Perfeição Cristã de II Pedro



O apóstolo Pedro aponta a necessidade de o cristão frutificar no conhecimento de Deus. Contra as heresias destrutivas dos falsos ensinadores manifestando-se em licenciosidade moral e desprezo de autoridade (2Ped. 2:2,10), Pedro trata especificamente sobre o propósito moral prático da graça e conhecimento de Jesus Cristo. Em particular ele está interessado na necessidade de santificação progressiva no caminho da salvação final. Tal progresso ele vê como o pré-requisito para a entrada no eterno Reino de nosso Senhor Jesus Cristo (2Ped. 1:11).

Em visão da realidade do dia vindouro do julgamento e da destruição dos ímpios, tão certo como aquele que veio ao mudo antediluviano e sobre Sodoma e Gomorra, Pedro veementemente convoca aos cristãos a viverem santa e piedosamente "sem mácula e irrepreensíveis" (2Ped. 3:7,10-11,14). Ele resume a sua epístola em seu apelo sempre desafiador: "Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo." (2Ped. 3:18; ver também 1Ped. 2:2).

Crescimento significa progresso. Mas como pode o crescimento ser cultivado pelos crentes, se isso é basicamente um dom de Deus (1Cor. 3:7)? A resposta é apresentada em 2Ped. 1:3-8, onde o apóstolo desenvolve sua notável escada da perfeição, na qual cada cristão precisa avançar constantemente, a fim de ser um cristão vivo (v. 8), preparado para o Reino eterno de Cristo (v. 11).

Pedro acha a sua escada de santificação no reconhecimento de que de Deus, "pelo Seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude..." (v. 3). Em outras palavras, no reconhecimento de que toda a vida de fé e bondade é um dom do poder e graça divinas. Este poder e graça Deus nos comunica através das "Suas preciosas e mui grandes promessas" (v. 4) como transmitidas pelos profetas de Israel nas Santas Escrituras do Antigo Testamento e confirmadas por Jesus Cristo (v. 19; João 5:39).

O propósito salvador e santificador das promessas do concerto gracioso de Deus é "para que por elas possais escapar da corrupção das paixões que há no mundo e vos torneis co-participantes da natureza divina" (v. 4), uma forte expressão para a perfeição do caráter cristão. Desde que o caráter é formado pelos atos do homem, o homem é chamado a participar ativa e sinceramente na apropriação pessoal da prometida graça, colocando em operação os poderes das promessas do concerto. Isto fará sua fé em Deus e em Cristo moralmente efetiva e frutífera, desde que Deus é santo, justo, misericordioso e fiel.

Sob este fundamento redentivo, Pedro exorta a todos os cristãos a prosseguir da fé à virtude, ao conhecimento, ao domínio próprio, à perseverança, à piedade, à fraternidade e ao amor – todos virtudes e atributos divinos. "Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo." (2Ped. 1:5-8).

O teor da enumeração desta série de virtudes não se propõe a  sugerir uma síntese de virtudes desconexas que possam ser atingidas somente uma após outra. Sua intenção é antes um chamado a cultivar e desenvolver plenamente a graça e o conhecimento de Cristo como Salvador em um caráter cristão maduro (compare com Gál. 55:22-23). Contudo, o perigo de começar a confiar no poder do homem e de perder de vista a Jesus ameaçará sempre o progresso cristão. Pedro, portanto, termina sua carta significativamente com o enfático conselho para crescer "na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Ped. 3:18). Assim, Pedro está lembrando o conselho do Senhor no Antigo Testamento: "O que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR." (Jer. 9:24).

O apóstolo Pedro, portanto, não está estimulando qualquer adição de virtude a virtude em uma disciplina de auto-cultura ou auto-ajuda, mas ele está chamando aos cristãos a seguir os passos de Jesus Cristo como o seu grande Exemplo de caráter (1Ped. 2:21). Em comunhão com Cristo, eles podem e de fato, alcançarão vitória sobre cada pecado e atingirão nesta vida o padrão da perfeição do caráter cristão. Se as virtudes da fé estão faltando em um cristão, Pedro diz, então o crente está ainda cego e míope, tendo perdido a visão da "purificação dos seus pecados de outrora" no batismo (v. 9); sim, até esquecido o propósito do chamado e eleição celestiais. "Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo." (2Ped. 1:10-11).

Contemplando estas palavras, Ellen G. White confiantemente, exclama: "Preciosa segurança! Gloriosa é a esperança oferecida ao crente, quando  ele avança pela fé em direção às alturas da perfeição cristã!" (Atos dos Apóstolos, p. 33).

Cada cristão é colocado sob o santo privilégio e obrigação da graça de Deus de lutar por santidade, participar da natureza divina e revelar na concreta realidade de sua vida social um constante crescimento na graça e conhecimento de Cristo. Este amadurecimento do caráter cristão na semelhança de Deus é perfeição cristã em ação. Assim, o cristão pode participar na alegria e beleza da santidade, preparando-se a si mesmo para "novos céus e uma nova terra, nos quais habita justiça" (2Ped. 3:13). "A Ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno." (v. 18).

Acesso Teológico
Naldo JB

segunda-feira, 29 de julho de 2013

VII – Perfeição de Consciência na Carta aos Hebreus



De todos os escritos do Novo Testamento, a epístola aos Hebreus mais explicitamente faz da perfeição o seu tema, apontando constantemente ao Cristo glorificado como o único Mediador da graça perdoadora e poder santificador. Perfeição cristã constitui a idéia unificadora central de toda carta. Isto significa que o ministério sumo-sacerdotal de Cristo no templo celestial "pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles." (Heb. 7:25).

Desde o começo, o autor tenta provar, com base no Antigo Testamento, que o ministério de Jesus Cristo como o Rei Sacerdote Messiânico é de uma qualidade e eficácia superior ao sacerdócio levítico. Seu argumento se centraliza na mediação da perfeição: "Se, portanto, a perfeição houvera sido mediante o sacerdócio levítico ... que necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, e que não fosse contado segundo a ordem de Arão?" (Heb. 7:11).

Ele apela repetidamente à significante promessa de Sal. 110:4 (Heb. 5:5-6; 7:17,21), que implicava a ab-rogação do sacerdócio levítico. Acentuando o fato inegável da ineficácia de muitos sacrifícios cúlticos por afirmar que estes "no tocante à consciência, sejam ineficazes para aperfeiçoar aquele que presta culto" (Heb. 9:9), o autor exalta o todo-suficiente sacrifício de Cristo, feito uma vez por todas, e Sua mediação, que pode aperfeiçoar ou purificar as consciências acusadoras dos crentes (Heb. 9:14).

O autor não queria dizer que o primeiro concerto não conhecia a realidade desta experiência expiatória no coração, mas somente que sacrifícios de animais em si não podem remover pecados (Heb. 10:1,4). Os sacrifícios do culto e sacerdotes do Antigo Testamento, como tais, nunca poderiam aperfeiçoar ou purificar o coração humano do poder contaminador do pecado.

Mas Cristo por Sua única oferta "aperfeiçoou (tem aperfeiçoado) para sempre a quantos estão sendo santificados" (Heb. 10:14). Pelo tempo verbal perfeito ("tem aperfeiçoado"), o autor deseja mostrar a eficácia sempre permanente da única oferta de Cristo de Seu corpo, única e uma vez por todas. Isto estabelece a superioridade, a mais poderosa eficácia do novo concerto (Heb. 7:22). Na base do sacrifício de Cristo, todo adorador pode obter diariamente uma consciência limpa ou perfeita, isto é, uma consciência que tem um perfeito relacionamento com Deus, sendo purificada da culpa e do poder contaminador de pecado não perdoado.

Tal reconciliação torna todos os outros sacrifícios supérfluos (Heb. 10:18), desde que a alma possa achar o repouso da graça, aproximando-se de Jesus com confiança. De Seu trono de graça é dada misericórdia e graça "para ajudar em tempo de necessidade" (Heb. 4:16) a fim de que os cristãos possam render pleno e aceitável serviço a Deus e a seus semelhantes. Contudo, a perfeição final será experimentada somente quando os santos virem o Senhor em Sua glória. Portanto, a expectação do julgamento e aparecimento de Cristo (Heb. 9:28) intensificam a ordem para perseverar no caminho da santificação. "Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor." (Heb. 12:14).

Caminhando como peregrinos a uma pátria melhor, os fiéis e perfeitos não serão "duros de ouvidos" ou "tardios", mas permanecerão receptivos e atentos, crescendo continuamente em conhecimento religioso e teológico, e distinguindo o bem do mal pela vida diária (Heb. 5:11-14; 6:11,12).

Acesso Teológico
Naldo JB

segunda-feira, 22 de julho de 2013

VI – A Perfeição do Amor na 1ª Epístola de João



O apóstolo João, no fim do primeiro século, escreveu contra as influências desmoralizantes do Gnosticismo primitivo na Igreja. Enquanto pretendiam estar na luz, no amor de Cristo, e em perfeição sem pecado, os Gnósticos cristãos defendiam ódio e licenciosidade na Igreja. João traçou as falsas reivindicações de tais crentes voltados a uma cristologia herética que separava Cristo de Sua concreta existência histórica e moral no corpo humano. Exaltando, portanto, a Cristo como o santo e justo (1João 2:1, 29; 3:3, 5, 7, 8), João retira uma poderosa conclusão: "Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus." (1João 3:9).

O apóstolo João evidentemente proclama somente um amor cristão que consome o pecado na vida dos crentes. Quando os cristãos estão realmente em Cristo, e Cristo neles, eles andarão "na luz, como Ele está na luz" (1João 1:7). "Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade. Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele: aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou."  (1João 2:4-6).

Assim, para João, perfeição é mais do que vida sem pecado; perfeição é uma comunhão moral e um relacionamento de amor dinâmico da alma com Cristo, revelando o mesmo caráter de santo amor como Cristo. Então, não haverá nenhum temor em seu coração para o Dia do Julgamento, ou vergonha quando Cristo aparecer em Sua santa glória: " Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança; pois, segundo ele é, também nós somos neste mundo. No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro." (1João 4:17-19; ver também 2:28).

João enfatiza a verdade de que o amor cristão não é o fluxo natural do coração humano, mas o dom redentor de Cristo no cristão, que só pode amar desinteressadamente porque ele foi amado primeiro em um maior amor por Cristo. O perfeito amor do cristão é o conceito que João tem de perfeição em ação. Isso se origina de uma real união de amor da alma com Deus e Cristo. Portanto, aquele que é nascido de Deus não pode pecar ou odiar. João baseia a impossibilidade de pecar do crente, não no cristão como tal, mas na presença mantenedora de Cristo que, no mais alto sentido, é nascido de Deus (1Jjoão 3:9). "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca." (1João 5:18).

Contanto que a alma esteja unida com Cristo e o Espírito de Cristo habita nele, esta alma não pode pecar, diz o apóstolo em 1João 3:9. O andar do cristão regenerado na luz não implica, contudo, em alguma consciência ou sentimento de santidade. Pelo contrário, o andar na luz significa uma contínua dependência da graça mantenedora e perdoadora de Deus.

É interessante que João usou o tempo presente quando ele escreveu aos cristãos batizados: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça." (1João 1:9). Em outras palavras, a vida vitoriosa do cristão não é o resultado automático de alguma natureza sem pecado nele. Não há justiça inerente no cristão antes de sua glorificação final no dia de Deus. Portanto, ele pode cair em pecado de novo, como aparece na consolação de João: "Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo." (1João 2:1).

Longe de estar escrita como uma recusa para pecar ou para andar nas trevas, esta mensagem confortadora revela a consciência de que nos filhos renascidos de Deus a velha e pecaminosa natureza está operando, sempre lutando de novo pela supremacia. O conhecimento de inerentes concupiscências da carne e dos olhos (1João 2:16) conduzirá o crente a um profundo arrependimento do coração e autocondenação. Somente a confiança implícita na palavra de absolvição de um Deus que "é  maior do que o nosso coração" (1João 3:20), enquanto andando em amorável obediência a Ele, poderá tranquilizar o coração diante dEle (1João 3:19).

Quando João distingue entre pecado mortal e pecado não mortal (1João 5:16,17), ele está continuando a doutrina do pecado do velho concerto, que diferenciava distintamente entre deliberado, presunçoso pecado e pecado inconsciente, não intencional que mais tarde motivava o arrependimento (Núm. 15:27-31; Sal.19:13,14). O apóstolo deseja esclarecer finalmente, que o cristão é guardado do pecado mortal ou presunçoso porque ele está sendo livrado desse caminho de pecado pela habitação do Espírito de Cristo. O filho de Deus não está mais sob o poder dominante do mal, como o mundo ainda está (1João 5:18-19). Ele está agora vivendo em Cristo (v. 20), participando do amor de Cristo com seus companheiros crentes em uma comunhão santa e feliz (1João 1:3-4).

Acesso Teológico
Naldo JB

segunda-feira, 15 de julho de 2013

V – Perfeição nos Escritos Paulinos



C. A Batalha Cristã      

Paulo tinha tão próxima comunhão de coração com o Cristo vivo que ele podia testificar: "Porque para mim o viver é Cristo" (Fil. 1:21), e "Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim." (Gál. 2:20).

Com este profundo testemunho o apóstolo toca sobre a luta interna do cristão, que ele também já conhece por si mesmo (1Cor. 9:27), e que ele desenvolve mais plenamente em Gál. 5:16-24 e Rom. 7:14-25.

Primeiro de tudo, é essencial notar a voz passiva na confissão de Paulo: "Eu tenho sido crucificado com Cristo" (Gál. 2:19). Com isto, Paulo se refere ao seu batismo na morte histórica de Cristo sobre a Cruz. Legalmente, diante de Deus, diante de Sua santa Lei, o apóstolo diz: "Eu estou morto, 'já não sou eu quem vive' (Gál. 2:20)". Paulo significa por seu "eu" morto, o seu eu centralizado, o ego natural. Ele também chama isso de "o velho homem" ou "natureza" (Col. 3:9; Efé. 4:22), "a carne com suas paixões e desejos" (Gál. 5:24); ou simplesmente, "a carne" (Rom. 7:5). Paulo não diz que o seu "eu" estava inclinado à morte, ou beirando à morte, mas ele tinha sido "crucificado", o que indica um prolongado processo de morte. Embora alguém crucificado era legalmente morto e exterminado, na realidade tal pessoa poderia viver por vários dias e noites sobre a cruz, mas em sofrimentos e agonias crescentes.

Esta ilustração pode servir para esclarecer a mensagem do apóstolo em Gál. 5 e Rom. 7: Por um lado, os cristãos batizados têm que se considerar a si mesmos, pela fé em Cristo, legalmente mortos para o pecado e para a condenação da Lei de Deus (Rom. 6:11; 7:4). Por outro lado, eles descobrem que o velho "eu" está ainda vivo em realidade empírica; que as tendências herdadas e cultivadas para o mal e as práticas condenadas ainda enviam os seus desejos e impulsos ao coração purificado.

É um fato significante que nenhuma carta apostólica do Novo Testamento pressupõe uma Igreja sem pecado ou uma vida cristã sem a permanente batalha com o "eu". Todos os escritos do Novo Testamento estão plenos de exortações e admoestações morais para travarmos a luta penosa contra a carne, o mundo e os poderes das trevas.

Para os crentes batizados, contudo, não há desespero ou derrota necessários nesta batalha. Cristo habita em seus corações e lhes dá a vitória (1Cor. 15:57). Os crentes são chamados a ser "fortes no Senhor e na força do Seu poder" (Efé. 6:10). Sendo guiados por Seu Espírito, o fruto do Espírito pode ser desenvolvido: "amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio." (Gál. 5:22-23). Paulo, portanto, convoca: "Andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne... Se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei." (Gál. 5:16, 18).

"Assim, pois, irmãos, somos devedores, não à carne como se constrangidos a viver segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." (Rom. 8:12-14).

"Quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade." (Efé. 4:22-24).

Tiago acrescenta a importante idéia de que várias tribulações da vida para o cristão operam como um teste de sua fé que produz firmeza e, em seu caminho de batalha, perfeição de caráter (Tia. 1:2-4; compare com Rom. 5:3-4). Estas admoestações apostólicas mostram que a vida cristã não é apenas de paz e alegria; pelo contrário, o caminho da perfeição cristã ou santificação conhece inexpressíveis profundidades de luta, tristeza e arrependimento, ao lado das alturas da alegria redentora.

Nem todos os cristãos experimentarão necessariamente a mesma intensidade da batalha espiritual, como Ellen G. White anota: "Enquanto alguns são continuamente atormentados, afligidos e em tribulação por causa de seus infelizes traços de caráter, tendo que guerrear com inimigos internos e a corrupção de sua natureza, outros não têm mesmo a metade de conflitos a travar." (Testimonies, vol. 2, p. 74).

O caminho da perfeição cristã nunca pode ser de mero sentimento de santidade ou de isenção de pecado, por causa que Deus revelará gradualmente mais e mais os defeitos de nosso caráter através de um sempre crescente entendimento e eficácia de Sua Lei espiritual, santa e perfeita. Paulo tenta comunicar esta mensagem particular no muito debatido cap. 7 de sua epistola aos Romanos, versos 14-25.

O segredo para entender esta passagem parece descansar na compreensão de que para Paulo a santa Lei de Deus, através da operação do Espírito Santo ("a lei é espiritual", v. 14), funciona especificamente para convencer o cristão, de modo crescente, de sua própria natureza pecaminosa inerente, a despeito de seus desejos e ambições santos. "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo." (Rom. 7:18). O apóstolo alcança o clímax de seu auto conhecimento religioso quando ele finalmente confessa diante de Deus tanto sua extrema falência moral quanto sua completa e exclusiva confiança na justiça de Cristo. "Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor." (Rom. 7:24-25).

A consciência de ambas verdades simultaneamente na madura experiência cristã de Paulo é a mais profunda prova de que a perfeição cristã não é uma vida de extática alegria ou entusiasmo emocional, mas é também uma vida de fiel obediência e devota submissão ao nosso divino Senhor e Salvador. Lutando no poder divino com toda a armadura de Deus (Efé. 6:13-18), o cristão é chamado a destruir cada obstáculo à sua conexão viva com Deus e "levar todo pensamento cativo à obediência de Cristo" (2Cor. 10:5). O cristão não pode aceitar nenhum outro deus diante dEle. Cristo deseja reproduzir Sua própria perfeição de caráter naqueles que foram originalmente criados à Sua imagem e semelhança. "Meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós." (Gál. 4:19).

Isto pode ser atingido contudo, somente quando o cristão contempla continuamente e de todo o coração a glória transformadora de Cristo, descansando em Seu santo amor que consome todo o pecado. "E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito." (2Cor. 3:18).

Esta é a dinâmica, crescente perfeição cristã que o apóstolo Paulo exalta e com santa paixão estimula a primitiva igreja e igualmente a igreja de todos os séculos. O imperativo do concerto do Antigo Testamento, para seguir a Yahweh não é anulado, mas cumprido e concretizado no verdadeiro seguir a Jesus Cristo. Conhecer a Cristo e amá-lO com toda a nossa alma e com todo o nosso coração não significa nem a renúncia a Yahweh nem a apostasia de Moisés e os profetas de Israel. Pelo contrário, somente através do Filho, "que está no seio do Pai" (João 1:18), pode o Pai ser conhecido, amado, obedecido e plenamente honrado.

Acesso Teológico
Naldo JB

segunda-feira, 8 de julho de 2013

V – Perfeição nos Escritos Paulinos



B. O Duplo Aspecto da Justificação e Santificação    

O que o apóstolo entende pela presente perfeição dos cristãos? Estão eles perfeitos em Cristo no sentido de Justificação pela fé somente, que significa que a perfeição ou justiça de Cristo é imputada a eles?

O evangelho paulino focaliza especificamente sobre essa abençoada verdade nas seguintes passagens: "Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei." (Rom. 3:28). "Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça." (Rom. 4:4-5).

Este gracioso ato Deus, atribuindo a justiça de Cristo ou Sua perfeita obediência ao pecador arrependido, significa que Deus considera o crente justo com Ele mesmo. O cristão, portanto, tem paz com Deus em sua consciência, não mais sob condenação da santa Lei de Deus (Rom. 5:1; 8:1). O perfeito perdão de Deus por seus pecados e vida pecaminosa significa a completa absolvição de sua culpa diante do Julgamento divino por causa da obediência de Cristo. "Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos." (Rom. 5:18-19).

Portanto, Paulo desejava gloriar-se somente na Cruz do Senhor Jesus (Gál. 6:14). Para o apóstolo Paulo a justificação do ímpio, contudo, tinha não somente um aspecto legal salvador, mas também um aspecto dinâmico santificador, por causa que Cristo Se torna o Rei do crente justificado. "Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados." (Col. 1:13-14).

Justificação pela fé, portanto, implica a transferência da alma do domínio do pecado, em que ele foi nascido por meio de Adão, ao Reino da graça, cujo Rei é Jesus Cristo. O poder esmagador do pecado no mundo foi quebrado em Cristo, desde que Ele conquistou o pecado em nosso corpo humano (João 16:33; Rom. 8:3).

Através do batismo em Cristo, em Sua morte e ressurreição, o crente é legalmente incorporado em Cristo, participando em tudo o que Cristo tem adquirido em Sua vitória na Cruz e na Ressurreição (Rom. 6). Nesta base redentiva, Paulo levanta a pergunta significativa para os cristãos em Roma: "Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?" (Rom. 6:2). Explanando a profunda significação do batismo cristão como uma incorporação na própria morte de Cristo sobre a Cruz, ele afirma: "Sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos." (Rom. 6:6). "Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus." (Rom. 6:11).

Este indicativo salvador clama por um imperativo santificador que o apóstolo então estimula: "Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões". "Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a santificação." (v. 12,19).

Esta é a ética paulina da perfeição cristã! Isto pressupõe uma diária apropriação pela fé da vida e morte de Jesus Cristo como aceitas no batismo. Rom. 6 segue Rom. 3-5. A ordem apostólica é primeiro redenção, depois moralidade; primeiro justificação, então santificação; e isto como uma experiência diária. A dinâmica e total consagração da perfeição cristã, Paulo revela em seu grande apelo de Rom. 12:1-2: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."

Em Rom. 12:1-15:13, o apóstolo desenvolve como a justiça de Deus deveria ser revelada na vida cristã como um testemunho à graça recebida. Isto parece estar em harmonia e continuidade fundamentais com o concerto da graça do Antigo Testamento, em que obediência à Lei do concerto era condicionada e motivada pela redenção do Êxodo e participação diária no serviço do santuário. O apóstolo portanto, pode apelar também às promessas de Deus no Antigo Testamento sobre dar a Israel um coração limpo e obediente (Eze. 36:25-27; 37:27), e aplicá-las diretamente à igrejas cristã, dizendo: "Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus." (2Cor. 7:1).

Paulo resume sua mensagem evangélica e seu propósito moral muito brevemente como segue: "E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou." (2Cor. 5:15; ver também 1Ped. 2:24).

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Naldo JB

segunda-feira, 1 de julho de 2013

V. Perfeição nos Escritos Paulinos



A. A Perspectiva Apocalíptica de Perfeição  

Nos escritos do apóstolo Paulo, a palavra perfeição aparece muito freqüentemente (Rom. 12:2; 1Cor. 2:6; 13:10; 14:20; Efé. 4:13; Fil. 3:12,15; Col. 1:28; 3:14; 4:12). Embora ele use o termo com diferentes formas de significado, uma característica suprema permanece no uso de Paulo da palavra: a plenitude do estado redentivo dos crentes em Cristo Jesus. Paulo chama os crentes de "santos" e "perfeitos" por causa que eles recebem o pleno dom da obra redentora de Jesus Cristo.

A redenção de Cristo em sua plenitude é distinguida no Novo Testamento por dois aspectos ou fases: a salvação presente de justificação e santificação pela fé em Cristo de um lado, e a futura salvação de glorificação no segundo advento de Jesus Cristo de outro lado. Como o conceito do Reino de Deus, assim também a perfeição é um dom presente e uma realidade; contudo, em um outro sentido, isto é uma promessa a ser cumprida somente no estabelecimento final do reino da glória. Esta distinção dúplice Paulo aplica também ao conceito dos crentes como filhos de Deus. Em Rom. 8:14, ele assegura aos cristãos que eles já têm se tornado "filhos de Deus", desde que eles são guiados pelo Espírito Santo. "Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus."

Então Paulo esboça esta segurança redentora presente, dizendo: "Quando nós clamamos: 'Aba! Pai!', é o próprio Espírito dando testemunho com o nosso espírito de que  somos filhos de Deus". (v. 15-16). Contudo, quando o apóstolo trata sobre a glória futura a nos ser revelada, ele faz a notável afirmação de que nós, enquanto temos o Espírito Santo, "gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo." (Rom. 8:23).

O relacionamento entre Deus e o crente como Pai e filho, em conseqüência, é tanto uma realidade presente, em um sentido real, como uma realidade futura, em outro sentido. A diferença é determinada pelo significado dos dois adventos de Cristo. O mesmo princípio se aplica ao uso de "perfeição" com o apóstolo Paulo. Por um lado, ele pode dizer que os crentes em Cristo são perfeitos nEle e podem crescer juntamente em um Corpo perfeito ou espiritualmente maduro. (Col. 1:28;  3:14; 4:12; Efé. 4:13; Fil. 3:15; 1Cor. 14:20). Por outro lado, Paulo enfatiza que a perfeição final ainda não chegou e ainda é futura (1Cor. 13:10). Somente a glória do segundo advento de Cristo aniquilará toda imperfeição.

Desse modo, o apóstolo tenta corrigir as idéias daqueles crentes em Corinto que focalizavam uniteralmente toda a sua atenção sobre o primeiro advento de Cristo, pensando que a perfeição final já poderia ser experimentada nesta vida, e até se jactavam acima dos outros crentes (1Cor. 4:6-8). Para os tais, a esperança da ressurreição dos mortos era irrelevante e supérflua, desde que para eles a ressurreição "já era passada", o que eles provavelmente explanavam como uma experiência espiritual recebida no batismo (2Tim. 2:18). Isto levou o apóstolo a escrever um capítulo elaborado (1Cor. 15) sobre o significado da futura ressurreição dos mortos para o benefício daqueles crentes os quais diziam que "não há ressurreição dos mortos" (v. 12).

Quando Paulo ouviu que em uma outra igreja da Grécia, em Tessalônica, o erro estava exposto de que também a segunda vinda de Cristo, o dia do Senhor, não devia ser considerada como uma futura realidade, mas já tinha acontecido, ele lhes escreveu especificamente sobre a futura realidade da "vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e  da nossa reunião com Ele" (2Tess. 2:1).

Esta tendência de espiritualizar as realidades redentoras futuras da Ressurreição e do Segundo Advento em alguma presente experiência espiritual foi a influência fatal do Gnosticismo que evidentemente tinha feito sua invasão na igreja primitiva.

Este assim chamado Gnosticismo Cristão foi caracterizado ademais por sua desvalorização do bem-estar físico e moral dos crentes. Tanto o extremo ascetismo quanto a licenciosidade moral foram propagados como o caminho da perfeição ou liberdade perfeita e amor perfeito.

Ademais, contra o jactar-se em sua conduta imoral (1Cor. 5:1-6), o apóstolo enfatizou que "o corpo não é para a impureza, mas para o Senhor" (1Cor. 6:13), lembrando-os: "O vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos. Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo." (1Cor. 6:19-20).

Paulo elevou o corpo humano como uma boa e santa criação de Deus, que deve ser consagrado ao serviço de Deus. Em contraste com aqueles cujo "deus é o seu ventre e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas" (Fil. 3:19), Paulo explicitamente renunciou toda a justiça própria ou perfeição (v. 8-12). Buscando sua justiça exclusivamente em Cristo, ele contemplava a sua final perfeição na ressurreição dos mortos (Fil. 3:11). "Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus." "Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas." (Fil. 3:12, 20-21).

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Naldo JB

segunda-feira, 24 de junho de 2013

IV – Perfeição Cristã no Evangelho de Mateus



Dos quatro escritores do Evangelho, somente Mateus usa o termo "perfeito" (teleios). Esta palavra aparece duas vezes no seu Evangelho (Mat. 5:48; 19:21) como palavras do próprio Jesus.

Mat. 5:48

"Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste." (Mat. 5:48). Estas palavras freqüentemente citadas de Jesus sumarizam e são climáticas de toda a série de Seus pronunciamentos que foram dirigidos contra a piedade legalística dos escribas e fariseus. Falando enfaticamente, em Sua autoridade como o Messias, Cristo trouxe a verdadeira e perfeita interpretação messiânica de Moisés e dos profetas. Sendo o Rei de Israel, Ele personificou o Reino de Deus.

As declarações de Jesus em Mateus 5-7 são todas coloridas e direcionadas ao final estabelecimento do Reino de Deus em glória. Tendo afirmado Sua lealdade a Moisés e aos profetas (5:17-19), Jesus reiterou fortemente a antiga mensagem profética de que piedade externa e observância da lei ainda não qualificavam a alguém para o Reino de Deus. "Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus." (Mat. 5:20).

Quão longe estava Jesus de criar uma antítese entre Moisés e Sua própria redenção messiânica, aparece de novo de Suas palavras: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!" (Mat. 23:23).

Cristo diferenciou no Torah, entre assuntos "mais pesados" da lei e aqueles de importância secundária; entre seus princípios centrais da graça, fé e justiça e observâncias rituais externas. Ele não rejeitou a adoração do Templo e seus serviços sacerdotais, mas reviveu seus objetivos reconciliatórios e santificadores. "Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,  deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta." (Mat. 5:23-24).

Os pré-requisitos que Jesus estimulava para entrar no Reino de Deus parecem ser completamente os mesmos requerimentos sacerdotais exigidos no velho concerto para entrada no santuário (Sal. 15).

Em Mat. 5, Jesus indicou seis vezes que Moisés e o Torah deviam ser entendidos positivamente como motivados pelo amor a Deus e ao semelhante. Assim, Jesus corrigiu as interpretações superficiais e inadequadas dos escribas e fariseus. Desse modo, Jesus deu aos Judeus Seu Torah Messiânico. Finalmente, Cristo explanou como o amor do Pai celestial, fluindo imparcialmente para ambos os bons e os maus, é um perfeito amor que deve ser imitado ou refletido pelos verdadeiros filhos de Deus. "Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste." (Mat. 5:43-48).

Do contexto, se torna claro que Jesus não Se dirige aos gentios que não conheciam a Moisés e o concerto, mas aos filhos de Israel que conheciam a Deus como o seu Pai celestial. Eles foram tratados como filhos salvos de Deus: "Vós sois o sal da terra." "Vós sois a luz do mundo." (v. 13,14).

A experiência redentiva de Israel é definitivamente pressuposta. Aqueles que têm testado o gracioso amor de Deus são agora chamados por Jesus para manifestar esse amor redentivo a seus semelhantes, mesmo a seus inimigos. Como filhos de Deus, eles não podem senão seguir em Seus passos e revelar Seu espírito.

A ordem de Cristo a Seus discípulos de que eles sejam tão perfeitos quanto o seu Pai celestial é desse modo, tanto uma promessa como um dever, um dom e uma demanda. Isto não é um ideal que no melhor se consegue apenas uma aproximação, mas nunca atingido. Pelo contrário, perfeição cristã implica numa experiência pessoal do amor salvador do Deus de Israel e a manifestação de seu poder santificador em amor sincero a todos os que necessitam de nossa ajuda.

Este amor, disse Jesus, não é uma perfeição inatingível, mas uma realidade que "deve" ser experimentada e radiada aqui e agora pelos filhos do Pai celestial. Aqueles que são amados por Deus podem e irradiarão este amor a seus semelhantes, mesmo quando os semelhantes sejam hostis, inimigos. Este perfeito amor, ou amor de todo o coração, é perfeição em ação. Esta perfeição do Evangelho é o reavivamento dos princípios do perfeito amor como proclamado por Moisés e os profetas (Deu. 6:5; Lev. 19:18).

Mateus 19:21
O segundo uso da palavra "perfeito" (teleios) por Mateus, aparece em Mat. 19:21: "Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me."

Enquanto o Sermão do Monte enfatizava a básica harmonia e continuidade do Velho e o Novo Concertos, Mateus também deseja revelar por que a fé cristã e o judaísmo rabínico divergem. A história do príncipe jovem rico pode ser vista como o encontro crucial do Farisaico Judaísmo e Jesus Cristo. Para a sincera pergunta do príncipe: "Que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?", Cristo referiu-lhe primeiro as Santas Escrituras e o concerto de Deus: "Se queres... entrar na vida, guarda os mandamentos." (Mat. 19:17).

Quando o jovem finalmente asseverou: "Tudo isso tenho observado; que me falta ainda?" (Mat. 19:20), ele revelou uma necessidade de segurança pessoal de salvação. Faltava-lhe a experiência redentiva do amor perdoador de Deus como oferecido nas Escrituras e no serviço do Templo. Em realidade, portanto, ele não tinha observado o Torah, desde que ele não tinha conhecimento do seguro amor salvador de Deus. Cristo, contudo, ofereceu-lhe o que lhe faltava por um direto chamado para estar com Ele e participar de Sua comunhão salvadora: "Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me." (Mat. 19:21).

O teste crucial não foi a venda de suas posses, mas se o príncipe rico aceitaria a Jesus de Nazaré como o Messias Salvador a ser seguido e desejaria isso acima de todos os tesouros terrestres. O príncipe judeu fora ensinado a amar a Yahweh de todo o seu coração e toda a sua alma. Agora Jesus reivindicava este supremo amor do jovem, prometendo-lhe que ele seria "perfeito" se ele seguisse a Jesus como o Filho de Deus e O aceitasse como o seu Salvador e Senhor pessoal.

De acordo com Jesus, conseqüentemente, perfeição existe não em praticar atos de sacrifício próprio pelo próximo, mas no companheirismo de Cristo, seguindo Seus passos na comunhão com Ele. O teste real para o líder judeu não foi se ele estava disposto a dar abundantemente para os pobres, mas se ele aceitaria Jesus como a última autoridade a ser  seguida e o Senhor divino de seu coração.

Recusando este chamado de Cristo, o príncipe revelou que suas "muitas propriedades" eram o mais alto tesouro de seu coração. Suas posses funcionavam como um ídolo de que Cristo tinha que libertá-lo, a fim de lhe dar sua própria comunhão e reino.

Perfeição então, não é a luta por ideais éticos ou mesmo o esforço para imitar ou copiar a vida de Cristo independente dEle, mas é pertencer a Ele com inteiro e não dividido coração, e vivendo com Ele por Seu poder salvador e santificador.

Como a perfeição é requerida de cada discípulo de Cristo conforme Mat. 5:48, não exatamente de algum grupo especial dentro da Igreja, todo crente cristão é colocado basicamente diante do mesmo teste, como o príncipe jovem rico: renunciar cada tesouro pessoal ou ídolo a fim de seguir a Jesus Cristo com um coração completo, não dividido.

Cristo deseja possuir o coração de cada cristão e transformá-lo em um templo em que o Espírito Santo possa habitar e governar com perfeito amor. Para tal, Ele prometeu a salvação final: "Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus." (Mat. 5:8). Assim, a perfeição cristã é definida não pelo viver de alguém de acordo com a Lei moral, mas por pertencer e seguir ao Senhor Jesus Cristo com um coração puro. Tais pessoas "seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá" (Apo. 14:4).

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Naldo JB

segunda-feira, 17 de junho de 2013

III. Perfeição Humana no Antigo Testamento



C. Os Inspiradores Oráculos dos Profetas

Onde quer que os sacerdotes levíticos começaram a confiar nas cerimônias dos santos rituais propriamente ditos, não vendo a mensagem divina nelas, e perdendo o incentivo e motivação para a verdadeira obediência moral ao concerto, então o serviço do santuário de Israel se tornava distorcido e objetável a Deus, e Ele reagia enviando Seus profetas com mensagens especiais para os sacerdotes e seu ritualismo objetável. Os livros proféticos do Antigo Testamento repetidamente testificam da pecaminosa negligência de Israel de andar humildemente com Deus e perfeitamente com os seus companheiros de concerto.

No século oitavo AC, o profeta Miquéias, um contemporâneo de Isaías, dirigiu-se à Jerusalém com algumas questões específicas em nome de Yahweh: "Povo meu, que te tenho feito? E com que te enfadei? Responde-me! Pois te fiz sair da terra do Egito e da casa da servidão te remi; e enviei adiante de ti Moisés, Arão e Miriã. Povo meu, lembra-te, agora, do que maquinou Balaque, rei de Moabe, e do que lhe respondeu Balaão, filho de Beor, e do que aconteceu desde Sitim até Gilgal, para que conheças os atos de justiça do SENHOR." (Miq. 6:3-5).

Miquéias desafiou o cerimonialismo morto e o materialismo pecaminoso de Jerusalém, anunciando o julgamento de destruição total da cidade santa e seu Templo (3:9-12). Contudo, esta mensagem de julgamento implicava no apelo divino para o arrependimento e retorno  Deus de todo coração e alma. O profeta relembrou à escolhida nação de sua grande redenção do Êxodo. Relembrou os atos justos e salvadores de Yahweh! Isto poderia desmascarar todos os atos rituais como um esforço para expiar seus pecados como uma tentativa fútil. Até mesmo o sacrifício de um primogênito não poderia tirar o pecado! "Com que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei ante o Deus excelso? Virei perante ele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus." (Miq. 6:6-8).

Com este apelo desafiador os profetas proclamaram suas mensagens de julgamento a uma nação complacente, se era Amós e Oséias no reino do norte, ou Isaías, Miquéias, Jeremias, Ezequiel, no reino do sul. Em dramáticas e emocionantes exibições eles revelaram à nação escolhida a rejeição divina de um culto religiosos formal que tolerava e desculpava o pecado. Onde o serviço sacrifical falhava em purificar à nação de injustiça social, auto-glorificação e justiça pelas obras, os profetas por ordem de Deus eram chamados para sustentar o padrão da perfeição e santidade sacerdotais.

Isaías, com seu poder e brilho poético, reitera os pré-requisitos morais originalmente sustentados pelos sacerdotes: "Os pecadores em Sião se assombram, o tremor se apodera dos ímpios; e eles perguntam: Quem dentre nós habitará com o fogo devorador? Quem dentre nós habitará com chamas eternas? O que anda em justiça e fala o que é reto; o que despreza o ganho de opressão; o que, com um gesto de mãos, recusa aceitar suborno; o que tapa os ouvidos, para não ouvir falar de homicídios, e fecha os olhos, para não ver o mal, este habitará nas alturas; as fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio, o seu pão lhe será dado, as suas águas serão certas. Os teus olhos verão o rei na sua formosura, verão a terra que se estende até longe." (Isa. 33:14-17).

O Yahweh de Israel é um Deus santo, assim como também Ele é um Deus misericordioso e gracioso. Ele não pode e não tolerará pecado na nação escolhida por Sua graça. A ira de Deus foi derramada sobre uma Judá não arrependida através do exílio babilônico, que veio em três estágios intensificados (605, 597, 586 AC).

Após o segundo estágio (597 AC), 10.000 "todos os príncipes, homens valentes" foram levados cativos (2Reis 24:14), entre os quais estava o sacerdote Ezequiel. Os exilados judeus começaram a usar um provérbio que acusava seus pais de pecados pelo que eles tinham de levar a penalidade: "Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram?" (Eze. 18:2). Contra esta tendência de pensamento entre os cativos de Babilônia, que prevenia qualquer aceitação de culpa pessoal e portanto de verdadeiro arrependimento, Ezequiel teve que falar: "A alma que pecar, essa morrerá" (18:4).

Por outro lado, se uma alma andasse com Deus de acordo com o santo concerto, ele poderia seguramente viver. O concerto de Deus o consideraria perfeito ou "justo". Ezequiel assim coloca diante do povo do concerto no exílio os antigos requerimentos do Torah de Moisés, como ordenados originalmente pelo ministério sacerdotal (Sal.15; 24): "Sendo, pois, o homem justo e fazendo juízo e justiça, não comendo carne sacrificada nos altos, nem levantando os olhos para os ídolos da casa de Israel, nem contaminando a mulher do seu próximo, nem se chegando à mulher na sua menstruação; não oprimindo a ninguém, tornando ao devedor a coisa penhorada, não roubando, dando o seu pão ao faminto e cobrindo ao nu com vestes; não dando o seu dinheiro à usura, não recebendo juros, desviando a sua mão da injustiça e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem; andando nos meus estatutos, guardando os meus juízos e procedendo retamente, o tal justo, certamente, viverá, diz o SENHOR Deus."  (Eze. 18:5-9).

Após uma detalhada aplicação desta ética do concerto a um pai e seu filho a fim de inculcar uma responsabilidade a Deus, a instrução terminava num clímax com um emocionante apelo a Israel para arrepender-se, à luz do quadro purificado do santo e redentivo amor de Deus. "Portanto, eu vos julgarei, a cada um segundo os seus caminhos, ó casa de Israel, diz o SENHOR Deus. Convertei-vos e desviai-vos de todas as vossas transgressões; e a iniqüidade não vos servirá de tropeço.  Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes e criai em vós coração novo e espírito novo; pois, por que morreríeis, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o SENHOR Deus. Portanto, convertei-vos e vivei. (Eze. 18:30-32).

Após os 70 anos de exílio em Babilônia, um novo começo foi feito quando Deus entrou em um novo concerto com o remanescente fiel após à crise. Os profetas como Ageu e Zacarias reavivaram as almas dos cativos que retornaram, comunicando mensagens de esperança, coragem e um glorioso futuro: "A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o SENHOR dos Exércitos; e, neste lugar, darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos." (Ageu 2:9). "Assim diz o SENHOR: Voltarei para Sião e habitarei no meio de Jerusalém; Jerusalém chamar-se-á a cidade fiel, e o monte do SENHOR dos Exércitos, monte santo." (Zac. 8:3) "E há de acontecer, ó casa de Judá, ó casa de Israel, que, assim como fostes maldição entre as nações, assim vos salvarei, e sereis bênção; não temais, e sejam fortes as vossas mãos." (Zac. 8:13).

Mas o novo concerto requeria uma nova obediência: "A palavra do SENHOR veio a Zacarias, dizendo: Assim falara o SENHOR dos Exércitos: Executai juízo verdadeiro, mostrai bondade e misericórdia, cada um a seu irmão; não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um, em seu coração, o mal contra o seu próximo." (Zac. 7:8-10).

Deus ainda era o mesmo santo e gracioso Deus, odiando o pecado, enquanto amava o pecador. O novo serviço do santuário no templo reconstruído novamente oferecia graça perdoadora, requerendo uma vida perfeita em verdadeira obediência do coração, exatamente como antes do exílio (Jer. 31:31-33; Eze. 36:26-27).

Em uma significativa visão, Zacarias viu o sumo-sacerdote Josué em pé diante do "Anjo de Yahweh" e sendo acusado por Satanás. Josué representava os cativos de Israel que haviam retornado, "um tição tirado do fogo" (Zac. 3:2). Josué estava "trajado com vestes sujas", a iniqüidade confessada de Israel. Sob a ordem de Deus, as vestes sujas são removidas e trocadas por limpos e perfeitos trajes. Esta ação retrata vividamente a graça perdoadora de Deus. O pecado é removido, uma nova justiça ou perfeição é imputada e entregue a um novo Israel.

Contudo, perdão pressupõe culpa e condenação reais. Não obstante, o perdão significa não meramente a remoção negativa da culpa, mas positivamente – e tão justo como real – a imputação e comunicação da justiça ou perfeição. O aspecto da santificação, a nova obediência, é enfatizado como um pré-requisito específico para a final e eterna bênção.

"O Anjo do SENHOR estava ali, protestou a Josué e disse: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Se andares nos meus caminhos e observares os meus preceitos, também tu julgarás a minha casa e guardarás os meus átrios, e te darei livre acesso entre estes que aqui se encontram." (Zac. 3:5-7).

Zacarias tinha tornado inequivocamente claro que a graça divina obriga a uma perfeita obediência, a obediência da fé que brota de um coração recriado e voluntário. Ellen G. White fez uma aplicação particular da visão de Zacarias à tentada e provada igreja remanescente. Dela, Cristo declara: "Eles podem ter imperfeições de caráter; podem ter falhado em seus esforços; mas se arrependeram, e Eu os perdoei e aceitei." (Profetas e Reis, 589).

Quão lamentável é ler no último livro do Antigo Testamento que Israel após o exílio falhou novamente em manifestar a comunhão transformadora do concerto com Deus e a obediência da fé. Como causa principal de sua vida ética-social degenerada, Malaquias apontou a um ministério sacerdotal falido. A adoração no Templo de novo deteriorou-se a um ritualismo morto, sem o temor do Senhor – que é a tremente reverência em humilde obediência. Deus dirigiu-Se a Israel com algumas questões pertinentes ao sacerdócio em Jerusalém: "O filho honra o pai, e o servo, ao seu senhor. Se eu sou Pai, onde está a minha honra? E, se eu sou Senhor, onde está o respeito para comigo? — diz o SENHOR dos Exércitos a vós outros, ó sacerdotes que desprezais o meu nome. Vós dizeis: Em que desprezamos nós o teu nome? Ofereceis sobre o meu altar pão imundo e ainda perguntais: Em que te havemos profanado? Nisto, que pensais: A mesa do SENHOR é desprezível." (Mal. 1:6-7).

Falta do temor de Deus foi manifestado inevitavelmente em deslealdade social, em profanação do santuário, e em infidelidade da aliança matrimonial. (Mal. 2:14,16). A quebrada comunhão do concerto com Yahweh, contudo, seria restaurada uma vez mais através da específica graça de Deus. Deus mesmo tomaria a iniciativa de trazer Seu povo de volta a um novo e perfeito relacionamento de concerto com Ele. Por causa que os sacerdotes levíticos tinham se "desviado do caminho... e, por [sua] instrução" tinham "feito tropeçar a muitos", e violaram "a aliança de Levi" (Mal. 2:8), Deus enviaria um mensageiro especial ao Seu Templo. Ele refinaria e purificaria Israel até que eles trouxessem "ofertas justas ao Senhor". "Então, a oferta de Judá e de Jerusalém será agradável ao SENHOR, como nos dias antigos e como nos primeiros anos." (Mal. 3:1-4).

Este mensageiro especial viria como o profeta Elias, a fim de conduzir  a nação escolhida a uma última decisão a favor ou contra Deus, preparando Israel para "o grande e terrível dia do Senhor", o Dia de Julgamento de Deus (Mal. 4:5-6): "Chegar-me-ei a vós outros para juízo; serei testemunha veloz contra os feiticeiros, e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o salário do jornaleiro, e oprimem a viúva e o órfão, e torcem o direito do estrangeiro, e não me temem, diz o SENHOR dos Exércitos." "Então, vereis outra vez a diferença entre o justo e o perverso, entre o que serve a Deus e o que não o serve." (Mal. 3:5,18).

Assim terminou o Antigo Testamento, ou antes permaneceu aberto ao futuro, com a promessa de um novo reavivamento e reforma. Finalmente, a linha de demarcação entre o justo e o ímpio, entre os perfeitos e os impenitentes malfeitores, se tornaria clara em sua reação à mensagem de advertência final de Deus.

Acesso Teológico
Naldo JB